Contribuições da Formação Continuada Colaborativa para o Ensino da Educação Física: O Olhar de Professoras dos Anos Iniciais¹

Publicado em Segunda, 27 Junho 2016 14:50

Vanessa Mastella Lena de Souza²

Resumo

O professor dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental é o responsável em trabalhar com os conhecimentos de diferentes componentes curriculares, entre eles a Educação Física. A problemática está, porém, nos limites de formar um professor polivalente capaz de ministrar aulas qualificadas em todos os componentes, dada à diversidade de conhecimentos que precisa dominar para tal. Alguns estudos constatam a fragilidade dos conhecimentos do professor polivalente sobre o ensino da Educação Física, tendo uma de suas limitações à formação profissional. Assim, a formação continuada pode se tornar um importante veículo para melhor qualificar o trabalho do professor. Considerando este cenário, é que se viu necessária à realização de intervenção colaborativa, a partir da pesquisa-ação como esforço em fornecer subsídios para uma atuação docente melhor qualificada no campo da Educação Física. Assim, a investigação realizada na instituição escolar buscou perceber quais as contribuições da formação continuada colaborativa para o ensino da Educação Física, no olhar de professoras dos Anos Iniciais. Para tanto, operou-se metodologicamente com a realização de uma pesquisa-ação, com três professoras polivalentes, atuantes no 5º ano do ensino fundamental, de escola pública, situada na região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Professora pesquisadora e professoras dos Anos Iniciais, em perspectiva de colaboração construíram grupo para formação continuada, estudando diferentes temas, na tentativa de uma transformação dos modos de ver e ensinar práticas corporais na Educação Física. No período de março a julho do ano de 2015, foram realizados estudos de formação totalizando 10 encontros. A partir da avaliação do programa, realizada pelas professoras ficam evidentes mudanças significativas em suas percepções, na medida em que partindo da ação docente refletida, passaram a visualizar a possibilidade de outros modos de ensinar na Educação Física, revelando a importância em manter aproximação entre escola (professores) e universidade (professor pesquisador) para auxiliar nas lacunas existentes em relação aos conhecimentos do componente.

Palavras-chave: Professor de Anos Iniciais; Formação Continuada Colaborativa; Educação Física.


Abstract

Professor of Primary Education Years Initials is responsible for working with the knowledge of different curricular components, including physical education. The problem is, but within the limits of forming a polyvalent teacher able to teach classes qualified in all components, given the diversity of knowledge they need to master to do so. Some studies have found the fragility of knowledge of the polyvalent teacher about the teaching of physical education, and one of its limitations vocational training. Thus, continuing education can become an important vehicle to better qualify the teacher's work. Considering this scenario, it is seen that is necessary to conduct collaborative intervention, from the action research in an effort to provide subsidies for better qualified teachers work in the field of Physical Education. Thus, research conducted in schools sought to understand what the contributions of collaborative continuing education for the teaching of physical education, in the eyes of teachers of the Early Years. Therefore, operated methodologically with the completion of an action research with three polyvalent teachers, working in the 5th year of elementary school, public school, located in the Northwest region of Rio Grande do Sul. Professor researcher and teachers of Early years in collaboration perspective built group for continuing education, studying different subjects in an attempt to a transformation of the ways of seeing and teaching body practices in physical education. From March to July 2015, training studies were carried out totaling 10 meetings. From the evaluation of the program conducted by the teachers are evident significant changes in their perceptions, in that starting from the reflected teaching action, they began to see the possibility of other ways of teaching in physical education, revealing the importance of rapprochement between school ( teachers) and university (research professor) to assist in the gaps in relation to the component of knowledge.

Keywords: Teacher of Early Years; Continuing Education Collaborative; Physical Education.

Introdução

O professor que atua nas séries/anos iniciais do ensino fundamental é o responsável em ensinar os conhecimentos referentes a esta fase escolar. Incumbido de trabalhar com os conhecimentos de sete componentes curriculares diferentes, articulados em quatro áreas (Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas), o professor se vê exigido de dominar um leque amplo de conhecimentos específicos, em uma profundidade suficiente, que lhe permita oferecer a seus alunos as condições necessárias para a aprendizagem.

Uma problemática desta forma de organização do ensino, no entanto, está nos limites do professor dos Anos Iniciais em ministrar aulas qualificadas em todos os componentes, dada à diversidade de conhecimentos que precisa dominar para tal. Neste cenário, em especial, a insuficiente formação deste docente, para ensinar os conhecimentos do componente curricular da Educação Física.

Com isso, acredita-se que a formação continuada seria um importante veículo para melhor qualificar o trabalho do professor. A formação continuada “constitui-se em um processo contínuo e ininterrupto que percorre toda a formação profissional do professor, sempre com o intuito de aprimorar a sua ação pedagógica e desenvolver a sua profissionalidade docente, a sua identidade” (ROSSI, 2010, p. 10). Em consonância (NÓVOA, 1995, p. 25) coloca que “a formação implica um investimento pessoal, um trabalho livre e criativo sobre os percursos e projetos próprios, com vista à construção de uma identidade, que é também uma identidade profissional”.

Conforme Chakur (2000, apud ROSSI, 2010) a razão mais comumente utilizada para justificar a necessidade de formação continuada apoia-se nos benefícios da atualização dos conteúdos básicos para uma melhor correspondência com as condições escolares, suprindo ao mesmo tempo, as deficiências da formação inicial.

O problema descrito, em relação à fragilidade dos conhecimentos dos professores dos Anos Iniciais para ensinar o componente curricular da Educação Física, sugere maior aproximação nas instituições escolares entre pesquisadores e docentes. Assim, a pesquisa colaborativa teria por objetivo criar nas escolas uma cultura de análise crítica das práticas que são realizadas nos contextos políticos institucionais, a fim de possibilitar que os seus professores, auxiliados pelos docentes da universidade, transformem suas ações e as práticas institucionais (ZEICHNER, 1993).

Sobre essa relação de colaboração Nóvoa (1995) acrescenta a ideia de que “é preciso fazer um esforço de partilha de experiências de formação, realizadas pelas escolas e instituições de ensino superior, criando progressivamente uma nova cultura da formação de professores” (p.30). Nesse sentido, pode ser concebida como uma abordagem facilitadora para o desenvolvimento profissional de professores.

Neste artigo, retrato o esboço de uma investigação pautada na pesquisa-ação. Conforme Abdalla (2005) a pesquisa-ação é considerada como instrumento para pensar a prática docente, avaliá-la, analisando e focando em dimensões de estrutura (contexto de trabalho), de prática (situação enfrentada) e de habitus (maneiras de ser e estar na profissão). Estas questões se fazem relevantes, pois nos permitem perceber e distinguir a pertinência da teoria para que a prática seja constantemente revista e vice- versa.

A coerência entre o discurso e a prática, a escuta sensível do pesquisador, emancipando-o, a possibilidade de teorização, dialetizando mudanças no individual e coletivo dentro do espaço escolar, se fazem necessárias para que haja um fortalecimento da autonomia em relação às escolhas, tomada de posição para possibilitar ampliar a participação e a ação (ABDALLA, 2005).

Kincheloe (1997) apresenta algumas características importantes da pesquisa- ação, como construir uma consciência profissional ao longo do processo, abrir espaço para a produção crítica do conhecimento, conduzir a organização das informações, interpretando-as, permitir relacionar valores e compromissos, possibilitar alterações nas ações cotidianas dos professores em sua sala de aula.

Assim a pesquisa na área da educação é importante na medida em que “procura esclarecer e potencialmente melhorar a formação inicial, fornecendo aos futuros professores conhecimentos oriundos da análise do trabalho docente em sala de aula e na escola” (TARDIF, 2002, p. 290).

Desta forma, se viu relevante um estudo mais aprofundado acerca destas questões no contexto da escola, em perspectiva de colaboração com os professores. A proposição de intervenção colaborativa, a partir da pesquisa-ação tornou-se um esforço em fornecer subsídios para uma atuação docente melhor qualificada no campo da Educação Física. Assim, a investigação realizada na instituição escolar buscou perceber quais as contribuições da formação continuada colaborativa para o ensino da Educação Física, no olhar de professoras dos Anos Iniciais.

Metodologia

No conjunto de pesquisas qualitativas esta foi pautada na pesquisa-ação. Conforme Thiollent (1985) citado por Bracht et al., 2005, esta perspectiva metodológica “[...] surge no âmbito das ciências sociais/humanas como uma reação à pesquisa tradicional de caráter empírico-analítico” (p.72). Conforme os autores se trata de uma postura metodológica que pretende “aproximar a produção teórica da prática, na medida em que envolvem na pesquisa os agentes sociais afetados na condição de sujeitos do conhecimento” (p. 72).

Ainda conforme Gaya et al. (2008, p. 115-116), “é uma pesquisa predominantemente coletiva, exige a participação dos atores sociais envolvidos no estudo e, além do mais, pressupõe a transformação nos níveis de consciência dos partícipes”. Neste sentido, Nadal et al. (2007), o professor, ao pesquisar sua própria prática

[...] aprende a trabalhar com seus problemas concretos, conceitualizando-os para compreendê-los. Sente-se estimulado a propor alternativa, a experimentar essas alternativas, observando e analisando seus efeitos. O professor parte de sua prática, teoriza sobre ela, planeja e a ela retorna, construindo desse modo, a relação teoria-prática (p. 170).

As concepções e práticas das professoras dos Anos Iniciais desta investigação muito têm a ver com a forma como estas foram apresentadas a disciplina, considerando tanto seus anos escolares, como a própria formação profissional. Por seu lado, essas concepções influenciam a relação que as mesmas estabelecem com os conteúdos do próprio componente [aproximação ou distanciamento] e a forma como desenvolvem as aulas no contexto profissional.

Nesse contexto, refletir acerca das possibilidades e entraves que diariamente são encontrados para viabilizar a ação pedagógica dos professores foram um dos grandes desafios postos na investigação. Também, perceber as contribuições da formação continuada colaborativa considerando possíveis mudanças de olhar das docentes para o ensino da Educação Física.

Para isso, no contexto da investigação foi montado um grupo de estudo, constituído por professora pesquisadora e 03 (três) docentes, mulheres, todas elas professoras que desenvolviam seu trabalho junto ao 5º ano do ensino fundamental, por tanto, responsáveis de ministrar todos os componentes para essas turmas, inclusive a Educação Física. O estudo foi realizado em escola da rede estadual de ensino, com localização geográfica urbana, de abrangência da 36ª Coordenadoria Regional de Educação, no Estado do Rio Grande do Sul.

Como forma de preservar a identidade das professoras, foi utilizada a letra P – [professora] seguido de um algoritmo [P1, P2, P3] para identifica-las. Foram oportunizados 10 encontros de formação por um período de 4 meses, formação esta realizada no ano de 2015. Todos os aspectos éticos foram observados, no desenvolvimento da mesma segundo o descrito aprovado pelo CEP sob o número 919.919 de 04 de dezembro de 2014.

Resultados e discussão

A construção dos saberes dos sujeitos se dá ativamente ao longo do seu percurso de vida. É importante, dessa forma, que estes saberes e esta “produção de sentido” consigam de fato provocar mudanças nos contextos de intervenção profissional. A principal ideia foi possibilitar por meio de formação continuada colaborativa um “ensaio” para novos modos de trabalho pedagógico diante da realidade atualmente observada na instituição. Também a escuta atenta para os eventos que iam surgindo ou sendo manifestos pelas professoras ao longo dos encontros. Com isso possibilitar momentos de reflexão para (re)pensar as práticas pedagógicas por um olhar crítico.

Os encontros de formação consistiram em momentos de exposição oral, vídeos, escuta, diálogos, relatos de experiência da vida profissional das professoras, sempre procurando estabelecer uma relação com sua prática docente na Educação Física. Também análise de unidades didáticas previamente organizadas pela pesquisadora.

No início do grupo de estudo, procurei conceder atenção especial à vida das professoras, saber das motivações que as levaram a escolha da profissão, como se deu o processo de formação docente. Saber de suas experiências, a realidade acerca do desenvolvimento de seu trabalho, angústias, desejos, perspectivas. Procurei trazer aporte teórico para dialogar de forma interativa sobre teoria e prática de forma que aquele momento estivesse próximo de uma “produção de sentido” para todas as envolvidas.

Nesse processo procurei evitar que os encontros se tornassem algo apenas expositivo, mas que sim fosse um espaço dialogado a partir das intervenções, reflexões das professoras acerca de sua práxis, ou seja, de suas atividades docentes. Conforme Abdalla

adotar a pesquisa-ação, como concepção metodológica, seria a melhor forma de apreender a realidade, pensá-la na fluidez de seu processo e, principalmente, possibilitar o envolvimento ativo das professoras na realidade a ser investigada. Desse modo, a pesquisa-ação seria um instrumento para compreender a prática, avaliá-la e questioná-la, exigindo, assim, formas de ação e tomada consciente de decisões (2005, p.386).

Minhas colocações tiveram a intenção de fazer a mediação, oportunizar momentos de reflexão sobre a ação das professoras, por um movimento em que as mesmas pudessem ir reportando-se às concepções dos autores trazidos e ao mesmo tempo refletir sobre sua prática pedagógica, construindo e/ou pondo-se a pensar também sobre sua identidade profissional. Nas palavras de Pimenta (2005, p. 528) a identidade profissional se dá

pelo significado que cada professor, como ator e autor, confere à atividade docente no seu cotidiano a partir de seus valores, de seu modo de situar se no mundo, de sua história de vida, de suas representações, de seus saberes, de seus anseios e angústias, do sentido que tem em sua vida o ser professor, assim como a partir de sua rede de relações com outros professores, nas escolas, nos sindicatos e em outros agrupamentos.

Assim, ao longo dos encontros de formação, pelos diálogos estabelecidos foi possível identificar concepções iniciais das professoras sobre o ensino da Educação Física e ao mesmo tempo intenções de mudança, ou seja, outro olhar para os modos de ver e trabalhar com a Educação Física.

Em linhas gerais os conceitos mencionados revelaram inicialmente concepções tradicionais da disciplina atribuindo à mesma um caráter psicomotricista e recreacionista. Estes entendimentos diziam respeito à Educação Física vista como suporte para outras disciplinas, fortemente atrelada à ideia da psicomotricidade, bem como tida como um momento mais lúdico, momento livre, de lazer e recreação com possibilidade de desenvolver atitudes e valores, trabalhar a motricidade e incluir sujeitos.

Outro fato importante observado foi sobre a forma como as professoras foram apresentadas à Educação Física enquanto aluna, ora pelo incentivo à prática de atividades físicas [anos iniciais], ora por momentos de exclusão [anos finais] influenciando na relação que estas estabeleciam com a mesma. Também, como a formação inicial das mesmas, tanto no curso do magistério, como na educação superior pouco tratou teoricamente e metodologicamente sobre o ensino da Educação Física identificou-se uma prática realizada com caráter meramente prático pautada na experiência das docentes enquanto aluna e em um conhecimento do senso comum.

As docentes manifestaram também alguns entraves limitadores para as aulas de Educação Física, em especial, diziam respeito à formação docente que não deu suporte necessário para ensinar os conhecimentos da matéria, ou seja, o conhecimento teórico dos conteúdos para sustentar a prática. A falta de experiência e questões subjetivas a respeito do próprio corpo [medo, insegurança] para se colocar nas práticas corporais. Dúvidas em relação ao planejamento, ‘o que’ e ‘como’ trabalhar os conteúdos enquanto conhecimento, os referenciais da área que até o presente momento [formação] não conheciam.

As possíveis mudanças evidenciadas a partir do trabalho de formação continuada colaborativo realizado foram que, por exemplo, as professoras passaram a reconhecer a importância em ampliar o rol de conhecimentos acerca do componente, oportunizando outras manifestações da cultura corporal de movimento. Com isso, ampliar os espaços da Educação Física, buscando parcerias junto à comunidade externa. Ficou manifesta também a compreensão maior a respeito da noção de conteúdos a serem desenvolvidos dentro da disciplina, ressaltando compreenderem melhor o caminho a seguir, inicialmente evidenciado no português, na matemática, ciências, outras.

Ampliou-se a compreensão sobre as formas de organizar os conteúdos, a partir de unidades didáticas. Reconheceram a possibilidade de trabalhar na Educação Física com a pesquisa, e o registro, fazendo a sistematização e socialização dos achados em sala de aula, assim como também articular os conhecimentos do componente com outras disciplinas, dentro de um projeto maior tornando-se rico em conhecimento.

Passaram a compreender melhor sobre a importância em oportunizar as crianças momentos de diálogo e reflexão diante das ações de aula propostas, assim como entenderam a necessidade de melhor administrar o tempo para oportunizar momentos mais reflexivos, abrindo espaço para que os alunos contribuam com suas ideias. Colocaram a respeito de repensar o plano de estudos da disciplina, trabalhando em maior aproximação com os professores especialistas da escola, utilizando os referenciais da área.

Após os 10 (dez) encontros de formação continuada colaborativo, as docentes foram orientadas a falar a respeito do seu olhar sobre a relevância de uma aproximação colaborativa entre escola e universidade. Ou seja, a relevância na aproximação entre professor dos Anos Iniciais e professor especialista a fim de perceber em que medida esta experiência de formação veio a contribuir para outro olhar da Educação Física. As docentes apontam para o que segue.

A professora P3 ressalta que essa aproximação “é fundamental, fundamental. Por que querendo ou não o especialista ele tem estes detalhes digamos assim, na sua área que muitas vezes o polivalente não tem. Nós somos poli, nós sabemos um pouco de cada coisa, mas nos falta muitas vezes aquele detalhe naquela área. Isso é muito importante. Essa troca é fundamental. E a universidade é um campo muito rico, e é fundamental que ela se aproxime da escola, e a escola se aproxime da universidade. E as escolas e o professor em geral, eu acho muitas vezes que ele se vê incapaz de produzir, de ser autônomo, pesquisador. E a universidade ela mostra isso, que não. Tu podes ser um professor, tu podes fazer uma especialização, tu podes pesquisar na educação, tu pode ser um pesquisador” (P3).

A professora P1 faz sua manifestação. “Essencial, indispensável. Eu estou afastada da universidade há muito tempo, mas eu adoro o meio acadêmico” (P1). A professora P2 coloca “Muito bom, precisaria mais disso. Por que a gente fica perdida. Esclareceu uma dúvida que a gente tinha em Educação Física, agora fica em ciências, outras disciplinas”.

A professora ainda menciona a importância em continuar ofertando formações via coordenadoria e universidade para atualização profissional. “Tomara que tivesse mais [...]. É que nem você com novas visões das coisas. Por exemplo, autores, os autores que eu conheço hoje são aqueles que eu li. E hoje que autores que a universidade está privilegiando dentro da área de linguagem, que autores? Então eu uso os cursos para me atualizar” (P1).

A professora P2 corrobora desta ideia. “Isso, alguém que chegasse, ou mesmo dentro de um projeto que nem este teu. Um acadêmico que viesse fazer dentro do mestrado, que viesse e trabalhasse essa parte”. [...] “Então nós temos que nos integrar e fazer esta diferença” (P2).

Percebe-se que os encontros de formação continuada colaborativa oportunizaram momentos de reflexividade crítica sobre as próprias práticas em curso articulando os saberes da experiência com conhecimentos teóricos colocados em pauta a partir dos protagonistas [professoras dos Anos Iniciais e professora pesquisadora]. Tratou-se de dizer um pouco de si e ouvir um pouco do outro, num diálogo coletivo sobre o fazer docente, na convicção que “a formação não se constrói por acumulação [de cursos, de conhecimentos ou de técnicas], mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re) construção permanente de uma identidade pessoal” (NÓVOA, 1995, p. 13).

Considerações Finais

Nas colocações de Sacristán (1999, p.12 apud PIMENTA; LIMA, 2005/2006) é inseparável esta relação teoria e prática no plano da subjetividade do sujeito [professor], pois sempre há um diálogo do conhecimento pessoal com a ação.

Portanto, o papel da teoria é oferecer aos professores perspectivas de análise para compreenderem os contextos históricos, sociais, culturais, organizacionais e de si mesmos como profissionais, nos quais se dá sua atividade docente, para neles intervir, transformando-os. [...] Dessa maneira os saberes teóricos propositivos se articulam, pois, aos saberes da ação dos professores e da prática institucional, ressignificando-os e sendo por eles ressignificados (PIMENTA; LIMA, 2005/2006 p. 16).

Dessa forma no decorrer dos encontros as professoras foram percebendo a importância desta “conversa” entre a teoria e a prática, para o desenvolvimento do trabalho do professor pelo viés da formação continuada colaborativa.

Conceber uma prática de formação, em colaboração crítica reflexiva, como esta a que me propus, reporta a um entendimento maior acerca de uma práxis fundamentada teoricamente. Nas palavras de Saviani (2005, p. 141) “se a teoria desvinculada da prática se configura como contemplação, a prática desvinculada da teoria é puro espontaneismo. É o fazer pelo fazer”.

Dessa forma, “a práxis pedagógica dos professores envolvidos na pesquisa, partindo da própria ação docente, refletida, fundamentada teoricamente e sistematizada se constitui uma modalidade de formação contínua com amplas possibilidades transformadoras e emancipatórias” (PIMENTA, 2005, p. 526).

Diante do que foi exposto acredito que desenvolver novas formas de pensar, projetar, planejar as ações docentes, torna-se um trabalho fundamental no contexto das escolas, embora muitas vezes árduo e lento. É no esforço diário do constituir-se professor que todos estes enfrentamentos serão realizados tentando ressignificar a prática com referência em ações/experiências e em reflexões/teorias, um esforço coletivo, por intermédio do diálogo, levando professores a questionarem-se sobre as suas competências e habilidades profissionais, as quais serão importantes para proporcionar maior tranquilidade no desenvolvimento das ações pedagógicas na vida escolar.

Percebe-se por meio desta investigação realizada a necessidade de continuar estabelecendo uma relação de contribuição mútua entre professor especialista e professor dos Anos Iniciais através de formação continuada colaborativa, auxiliando o grupo de professores diante das lacunas evidenciadas em relação aos conhecimentos da Educação Física. Assim, para as demais disciplinas vê-se também relevante esta aproximação, já que o tempo destinado para sentar e pensar especificamente o componente colaborou significativamente para uma mudança de olhar das professoras.

REFERÊNCIAS

ABDALLA, Maria de Fátima Barbosa. A Pesquisa-ação como Instrumento de Análise e Avaliação da Prática Docente. Ensaio. Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 383-400, jul./set. 2005.

BRACHT, Valter et al. Pesquisa em ação: a Educação Física na escola. Ijuí, Unijuí, 2005.

GAYA, Adroaldo et al. Ciência do movimento humano. Introdução à metodologia da pesquisa. Porto Alegre: Artmed, 2008.

KINCHELOE, J. A formação do professor como compromisso político: mapeando o pós-moderno.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

NADAL, Beatriz Gomes. Práticas pedagógicas nos anos iniciais: concepção e ação/organização de Beatriz Gomes Nadal; colaboração de Gilsani Dalzoto Salles...[ et al.]. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2007, 182 p.

NÓVOA, A. Formação de professores e profissão docente. In; NÓVOA, a. (Org.) Os professores e a sua formação. 2. Ed. Lisboa. Dom Quixote, 1995. P. 15-33.

PIMENTA S. G. Pesquisa-ação crítico-colaborativo: construindo seu significado a partir de experiências com a formação docente. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 3, p. 521-539, set./dez. 2005.

PIMENTA, Selma Garrido; LIMA, Maria Socorro Lucena. Estágio e docência: diferentes concepções.
Revista Poíesis - Volume 3, Números 3 e 4, pp.5-24, 2005/2006.

ROSSI, Fernanda. Formação continuada em Educação Física Escolar: concepções e perspectivas de professores. UNESP - Rio Claro. 211 fl. 2010.

SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico crítica: primeiras aproximações. 9. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2005.

TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional/Maurice Tardif. 14. ed. - Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

ZEICHNER, K. El maestro como profesional reflexivo. Cuadernos de pedagogía, v. 220, p. 44-49. 1993.

¹ Este artigo é um recorte de pesquisa da dissertação de mestrado em Educação nas Ciências (Unijuí) desenvolvida no ano de 2015.
² Graduada em Educação Física pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ; Pós-graduada em Aprendizagem, Desenvolvimento e Controle Motor pela Universidade Gama Filho/(UGF); Mestranda em Educação nas Ciências – Unijuí.
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