Gênero e diversidade nas escolas: regras e exceções

Eles não têm medo de ensinar questões de gênero em sala de aula

Os professores de ensino básico e médio que trazem questões de gênero em sala de aula são regra e exceção. São regra porque todos deveriam estar abordando esses temas; são exceção porque é uma minoria que busca formação
no tema”, relata a doutora em educação Lucélia Bassalo, que é também professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado do Pará. Ela explica que os professores no geral não são preparados para esses temas na graduação e eles acabam procurando materiais por conta própria para suprir necessidades que aparecem na escola.

Foi o que aconteceu com o professor Tarso de Souza Pereira, do Colégio Estadual Zumbi dos Palmares, em Duque de Caxias (RJ), que leciona para os ensino médio e fundamental: “Meu interesse por gênero na sala de aula começou na escola anterior, Escola Estadual Araribóia.

Tive um aluno que se identificava como ‘travesti’, e pedia que fosse tratado no feminino, o que apenas eu, dos funcionários todos da escola, fazia”. Tarso relata que quando ficou sabendo que ele era impedido de usar o banheiro porque não podia entrar no feminino, e no masculino sofria agressão dos colegas, decidiu que já era passada a hora de trabalhar gênero.

“Procurei material online, isso ainda em 2011, e havia muito pouco disponível, foi quando uma amiga me mostrou o filme Transamerica, de 2005, e achei fantástico pela oportunidade de trabalhar diversos temas, como prostituição, uso de drogas e a questão de gênero. De lá pra cá tenho procurado incluir debates, filmes (tanto longa metragens quanto curtas, se possível) e textos. Pra mim, que leciono Língua Portuguesa e Produção de texto, é uma oportunidade incrível”, descreve Tarso Pereira.

Reações dos alunos e outros professores

A professora de sociologia Luiza Maria Silva de Almeida, da Escola Estadual Guilherme de Almeida, em São Paulo (SP), também procura inserir a temática de gênero, que está presente no currículo: “Levo material, peço pesquisas, faço rodas de conversa. Entre os trabalhos de destaque temos alguns realizados em grupo sobre o Movimento LGBT, também em relação a homofobia e aceitação do outro”.

Ela conta que a aceitação dos alunos foi quase unânime, mas dos colegas de profissão nem tanto: “Há alguns que não aceitam esse tipo de abordagem, apesar de não falarem abertamente, mas de tentarem demonstrar isso de forma sutil em suas falas. Na exposição de alguns cartazes dos alunos, um deles foi retirado. Os alunos me acionaram, procurei e achei em cima de um armário. Coloquei de volta e disse na sala dos professores que estava bem pregado e que não haveria desculpas dele não estar mais lá”.

Luiza Almeida relembra que houve um incidente com uma professora de língua portuguesa que, ao ver anotações na lousa, fez comentários sobre como Deus criou homem e mulher. “Os alunos discordaram, ela reagiu, disse para a direção que tinha sido desrespeitada e que eu estava colocando os alunos contra ela. Falou inclusive sobre ‘escola sem partido’. Provei que o assunto estava no currículo”, ressalta Luiza.

Tarso Pereira também enfrentou resistência da comunidade escolar – ainda mais com o fato de ele ser homossexual assumido: “Foi o principal motivo da minha solicitação de transferência de unidade escolar. Fui intimidado e sofri assédio moral de uma das coordenadoras da escola, evangélica, por conta do meu trabalho com os ditos “temas transversais”.

Alguns alunos também mostraram-se muito desconfortáveis no início, mas por ignorância. Uma vez discutido e trazendo clareza ao tema, mostraram-se inclusive mais abertos a falar sobre suas ideias, mesmo que preconceituosas e/ou intolerantes”.

“A minha tese de doutorado mostra isso, que o nosso preconceito, enquanto sociedade, ainda é muito grande. Vejo
turmas que começam com 30 alunos e terminam com sete”, relata a professora doutora Cláudia Alves da Cruz,
da Universidade de Brasília (UnB). A tese: “Eu tenho esse preconceito, mas eu sempre procurei respeitar os meus alunos: desafios da formação continuada em gênero e sexualidade", traz um perfil profissional dos professores do Distrito Federal com relação à temática de gênero com o intuito de melhorar a formação desses profissionais".

A pesquisadora explica que o próprio Ministério da Educação disponibiliza cursos e materiais com essa temática, para diferentes faixas etárias, só que a procura não é grande. Cláudia atribui isso a diferentes fatores, dentre
eles a própria subjetividade do professor (que tem dificuldade de lidar com o tema gênero e sexualidade), o desconhecimento da legislação e a própria formação: “Esse tema não é proibido e pode sim aparecer no projeto político pedagógico de uma escola, que tem essa liberdade. Além disso, há uma demanda em colocar disciplinas de
questões de gênero para os educadores ainda na graduação – mas na maioria das faculdades ela é optativa”, explica.

Discussão de gênero com uma estagiária de gênero não-binário 

A experiência das estudantes de Letras - Língua Portuguesa, Beatriz Mendes Madruga e Luna Isaac, foi singular. Elas fizeram estágio de um semestre sobre o tema “diversidade”, que foi desenvolvido na Escola Estadual Professor José Fernandes Machado, em Natal (RN). Luna é uma pessoa de gênero não binário: identifica-se com o gênero feminino, mas não como mulher. Usa Luna e pronomes femininos para si mesma. Ela ficou responsável pelo tema da diversidade de gênero (e temas gramaticais também).

Nas aulas, ela se apresentou já introduzindo essa questão do gênero: o aspecto binário, as diversas nomenclaturas, a existência de pessoas que não se identificam com os termos binários. Ela levou materiais que falavam de transexualidade, homossexualidade, sujeitos transgênero, contos e vídeos.

Segundo Beatriz, a recepção dos alunos foi boa – exceto por um aluno que resistiu um pouco em chamá-la de
“professora”, e insistiu para saber qual era “o nome dele de verdade”. “Mas isso foi apenas no primeiro dia, e possibilitou que a discussão sobre gênero se estendesse, e ela falasse ainda mais abertamente sobre sua condição”, pontua Beatriz.

Resultados positivos
O professor Tarso registra que aulas com questões de gênero apresentaram bons resultados, sobretudo com alunos mais velhos: “Tive a oportunidade de acompanhar algumas turmas em anos seguidos, e como sempre faço meus trabalhos transversais na mesma época, pude perceber o amadurecimento da maior parte dos alunos e uma maior receptividade”.

Para a professora Luiza, sempre há melhoras, principalmente em relação aos meninos que são héteros: “Eles
deixam as piadas, os risos. Meninas lésbicas se assumem. Vários alunos compareceram pela primeira vez,
seja para participar, seja para assistir, a Parada Gay”.

Na avaliação de Luna, a discussão de gênero feita por uma pessoa de gênero não-binário suscitou uma convivência de maior abertura, maior empatia, os alunos pareciam mais à vontade ainda do que antes: “No geral, os alunos também sentiram-se à vontade para perguntar, para questionar se isso realmente existia, porque eles nunca tinham
ouvido falar em gênero não-binário”.

 
 
  10/12/2018
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É urgente que as entidades educacionais se manifestem contra a aprovação sorrateira da nova BNCC do Ensino Médio
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