Carina Vitral
Presidenta da UNE
A recente onda de ocupações estudantis no Brasil, iniciada no movimento secundarista e que se estendeu também para as universidades pode ser entendida como a ação organizada de maior alcance dos estudantes brasileiros em toda a história. Mas de mil instituições de ensino em diversos estados foram ocupadas durante meses, levando ao conjunto da população as suas reivindicações em defesa da educação e da democracia, interferindo diretamente na opinião pública e nos rumos do país.
Duas coisas são fundamentalmente significativas nas ocupações de 2016. A primeira é o protagonismo da juventude como a principal força a fazer frente ao golpe de estado que destituiu de forma ilegítima a presidenta da República Dilma Rousseff e alçou ao poder um governo pautado no retrocesso e na retirada de direitos. A segunda é a predominância de mulheres estudantes, secundaristas ou universitárias, na condução desses movimentos e em papel de liderança dentro das escolas e universidades.
As ocupações acompanharam um momento de ascensão das lutas das mulheres brasileiras, a primavera feminista, que eclodiu nos últimos anos como um resgate da mobilização libertadora de várias outras gerações anteriores. Ocupar espaços de poder tornou-se uma questão de gênero para as milhões de meninas que assistiram à chegada da primeira mulher ao posto mais alto do país, assim como sua retirada traumática, pela agenda de um falso impeachment, contaminado pelo machismo e
pelos ataques pessoais à figura feminina. Se o golpe foi machista, a reação haveria de ser feminista.
Assim como em todos os outros segmentos da sociedade brasileira, o movimento estudantil ainda é também um espaço permeado pelas injustiças e opressões do patriarcado, ainda que tenha peso o grande avanço de termos, por mais de uma gestão consecutiva, três mulheres na presidência das três maiores entidades dos estudantes: a União Nacional dos Estudantes (UNE), a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e a Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG).
A universidade brasileira, apesar de ter uma maioria de mulheres matriculadas, ainda apresenta uma cruel minoria delas nos cargos de professoras, coordenadoras de departamentos, pró-reitoras e reitoras. Para alcançar uma posição de destaque dentro das escolas e universidades, as mulheres enfrentam diversos desafios. Um deles é o silenciamento, imposto em cada tentativa de exercer o nosso direito de fala ou apresentar alguma proposta para o coletivo. É parte do longo processo de invisibilidade
ao qual somos submetidas nas diversas etapas da nossa vida e ao qual decidimos resistir.
Outra situação recorrente é a apropriação das idéias trazidas por mulheres, seja em reuniões privadas ou grandes assembleias, e sua apresentação ao coletivo como se tivessem sido trazidas por homens. Há também a realidade do assédio, da objetificação, do abuso e do estupro, influindo igualmente para a anulação do nosso papel político e reclusão nas margens das instâncias das grandes decisões. Ser mulher e decidir fazer política é um gesto ainda revolucionário e de enfrentamento a uma realidade hostil e opressora.
Ainda assim, as meninas fortaleceram a sua ação conjunta, criaram laços, redes, espaços comuns de debates acerca do feminismo dentro das instituições de ensino e lutaram pela sua maior presença no movimento estudantil. A grande participação delas no comando das ocupações é fruto de todo esse crescimento, de um
longo amadurecimento que se estende, cada vez mais rapidamente, para as gerações mais jovens. Cada vez mais meninas novas, empoderadas, estão dispostas a resistir àquilo que as mais velhas sofreram.
Nas ocupações secundaristas, que tiveram como eixo o protesto contra a medida provisória 746 de reforma do ensino médio, uma das reivindicações centrais foi a garantia de um modelo de escola plural, crítico, com conteúdos que despertem a percepção dos estudantes acerca da sociedade em que estão inseridos.
Nessa escola, devem estar os debates relacionados a gênero e ao machismo, tendo em conta a gravidade de uma realidade nacional de forte violência e assassinatos de mulheres, da manutenção de uma cultura do estupro, da retirada dos direitos femininos sobre o próprio corpo. É uma demanda que vai na contramão de propostas conservadoras e fundamentalistas como as do movimento chamado Escola Sem Partido e a Lei da Mordaça.
Nas universidades, as estudantes que ocuparam os prédios de diversos cursos tiveram como norte o repúdio à Proposta de Emenda Constitucional 55, que congela os investimentos sociais, entre eles o da educação, por assustadores 20 anos. As mulheres sabem que, no sucateamento que se anuncia com essa proposta, será ainda menor a já pouca estrutura de creches para as mães estudantes, programas de apoio às grávidas, iniciativas de proteção e promoção feminina no ambiente universitário.
Por tudo isso, as ocupações foram umriquíssimo espaço de formação e articulação de jovens mulheres no movimento social, que ampliarão as suas lutas para novas trincheiras no próximo período. Ocuparemos tudo o que for preciso para garantir o direito da nossa real emancipação, sem violências e opressões, sem nem uma a menos entre nós.
Essa é a mensagem do movimento estudantil, que sempre teve papel determinante nas maiores questões nacionais e na determinação dos rumos de toda a sociedade brasileira. Vamos à luta, vamos juntas porque não podemos andar sós. Respeite as minas.