Senadora Teresa Leitão defende educação como direito pleno, e Miguel Nicolelis alerta para os efeitos da IA sobre o pensamento crítico
O Painel “Política Educacional”, realizado na manhã desta sexta-feira (16), dentro da programação do 35º Congresso da CNTE, em Brasília, reuniu reflexões políticas, sociais e científicas sobre os rumos da educação brasileira. O debate contou com as contribuições da senadora Teresa Leitão (PT) e do médico e neurocientista Miguel Nicolelis.
A atividade foi coordenada por Guelda Andrade, secretária de Assuntos Educacionais da CNTE, e por Luiz Carlos Vieira, secretário de Imprensa e Divulgação da entidade.
Em sua exposição, Teresa Leitão destacou que a política educacional não pode ser pensada de forma distante da sociedade. Para ela, o direito à educação só se realiza plenamente quando alcança todas as pessoas.
“A lei já diz: a educação é para todos e para cada um. Enquanto houver um sem escola, a Lei não estará sendo cumprida”, afirmou. A senadora defendeu a humanização do processo educativo como eixo central da reconstrução do país, ressaltando que educar é, прежде de tudo, cuidar de pessoas.
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Ao abordar o cenário político, Teresa lembrou as disputas em torno do Plano Nacional de Educação (PNE), destacando a tensão permanente no Congresso Nacional em cada ponto do documento. “Imaginem o que foi no Congresso a tramitação do PNE. Qualquer vírgula é motivo de disputa”, disse.
Segundo ela, acesso, permanência, qualidade e universalidade continuam sendo desafios históricos da educação brasileira, agravados nos últimos anos. A senadora avaliou que o país vive um cenário de “terra arrasada”, com impactos profundos no setor, mas projetou esperança ao defender a consolidação de políticas públicas comprometidas com o direito à educação.
Na sequência, Miguel Nicolelis fez uma análise crítica sobre o papel da tecnologia, em especial da inteligência artificial, nos processos educacionais. Para o neurocientista, a IA não pode ser vista de forma ingênua.
“A inteligência artificial nada mais é do que um projeto de dominação e controle, que visa, no extremo, à homogeneização da mente humana”, afirmou. Segundo ele, há o risco de formar indivíduos que não questionam, que aceitam passivamente lógicas impostas pelo mercado.
Nicolelis contextualizou o debate a partir da história, lembrando que a associação automática entre avanço tecnológico e progresso humano é antiga e equivocada. “Grandes historiadores, desde a Idade Média, já diziam que não se pode confundir tecnologia com progresso”, ressaltou.
O neurocientista chamou atenção para a necessidade de refletir sobre o tipo de ser humano que a escola pretende formar. “Nós não vamos a lugar nenhum se não soubermos que tipo de seres humanos queremos formar nas escolas”, afirmou.
Como exemplo, citou a experiência recente da Suécia, país referência em educação, que decidiu retirar computadores das salas de aula nos anos iniciais. Para ele, a relação direta entre professor e estudante é insubstituível. “Não existe sala de aula sem intercâmbio entre aluno e professor”, enfatizou.
Nicolelis reforçou que o cérebro humano não opera segundo a lógica digital e jamais poderá ser substituído por máquinas. “O cérebro humano não funciona em lógica digital, ele criou essa lógica”, disse.
Segundo ele, a condição humana é um fenômeno não computável, que não pode ser reduzido a fórmulas matemáticas. Quando se força o ser humano a funcionar como um sistema computacional, há um empobrecimento da experiência humana e do próprio processo educativo.
O painel evidenciou que os desafios da política educacional passam tanto pela garantia de direitos básicos — como acesso e permanência na escola — quanto pela defesa de uma educação crítica, humanizada e comprometida com a formação integral dos sujeitos, em um contexto marcado por disputas políticas e rápidas transformações tecnológicas.