Escrito por: CNTE

Entre a dor e a palavra: a escrita como resistência

Após o diagnóstico de câncer, Mônica Strege constrói uma obra que denuncia ausências e reafirma a força da educação pública

Professora da rede pública estadual de Mato Grosso, escritora e pesquisadora inquieta, Mônica Strege transformou a dor do adoecimento em potência criativa. Há quatro anos, após receber o diagnóstico de câncer, sua trajetória passou a ser marcada pela resistência, pela palavra e pela reflexão crítica sobre cuidado, vida e educação. 

Nesse período, escreveu dois livros, concluiu o doutorado e consolidou uma escrita que recusa romantizações. Seu trabalho mais recente, É (Sobre) Viver, com 294 páginas, prefácio da médica Ana Claudia Quintana Arantes e posfácio da professora Eliane Cadoná, é um manifesto pela vida atravessada pela experiência do adoecimento.

Em 2025, você recebeu o prêmio de Ativista do Câncer de Pulmão. O que esse reconhecimento representou na sua trajetória pessoal e coletiva?
Foi muito emocionante perceber que, mesmo de longe, é possível criar conexões e nos aproximar de pessoas que vivenciam desafios semelhantes e, de algum modo, tocar pessoas.

Por que “É (Sobre) Viver”? O que esse título significa para você?
Neste título, e nesse livro como um todo, falo justamente das inúmeras dificuldades que uma mulher, em estado de adoecimento contínuo como eu, tenho de enfrentar. Por isso, como explico no livro, sou totalmente crítica a essa versão de que nós, mulheres, temos de ser fortes.

A escrita foi uma forma de sobreviver?
O estado de adoecimento traz tantos efeitos ruins, entre os quais a solidão atroz e violenta. Por isso, aprender a conviver com as palavras foi um alívio para tantas dores para as quais não há remédio. Escrevo para viver mais. Vivendo mais, vou escrevendo e assim consigo suportar a densidade do cotidiano no qual vivo doente.

Qual foi o momento mais difícil durante esse processo e como a palavra te ajudou a atravessá-lo?
Não há um momento mais difícil, porque o estado de adoecimento é ruim o tempo todo. Por isso, a escrita é minha forma de respiro. Aprender a narrar as minhas dores é um modo de compreender que não há saída para a minha situação, ao mesmo tempo em que percebo que parte das dores que sofro são trazidas e potencializadas por tantas ausências. Escrever não cura, nem é conforto. Escrever é uma forma de me rebelar contra a conduta indiferente dos serviços médicos, contra a caridade de quem me detesta e contra os discursos de autoajuda.

Como é transformar uma experiência tão íntima em palavra pública?
Não é um detalhe simples. Toda escrita é uma elaboração de eventos que vivi e que não poderiam ser contados literalmente. Quando escrevo, consigo repassar, outra vez, pelos meus próprios temas. Depois que elaboro, não sinto que é complicado tornar público o que, para mim, já é algo minimamente compreensível.

Você é professora da rede pública. Como a educação aparece como fio condutor na sua obra?
A educação, tal como a concebemos, representa uma visão de Estado e de sociedade oriunda de uma noção de domínio machista. Independentemente do meu estado de adoecimento, sempre fui militante de uma educação mais igualitária, antirracista e feminista. Escrevo também porque sei que o domínio do discurso é um domínio político.

O que a literatura te permite dizer que talvez a pesquisa acadêmica não permita?
A pesquisa acadêmica tem compromisso com a formação de conceitos e procedimentos. A literatura tem compromisso com a fruição artística. Não se pode fazer ciência panfletária, nem arte panfletária, mas a literatura pode, pelo viés artístico, ser militante de uma causa. Minha pesquisa se compromete com a formação de conceitos que ajudem a sociedade a superar o machismo, a violência e a misoginia.

O que mudou na sua visão sobre o cuidado depois do adoecimento?
Pouca coisa mudou. O adoecimento faz emergir hipocrisias que, em contextos de não adoecimento, sobrevivem dentro de uma ideia de normalidade. Em jornadas como essa, pessoas que afirmavam compromisso e cuidado fogem. É doloroso, mas comum, especialmente para nós, mulheres.

Mulheres cuidam de todos. Quem cuida das mulheres?
Nem as próprias mulheres. O cuidado é um tema tão delicado que, mesmo após defender minha tese de doutorado sobre isso, percebo um abandono sistemático em relação às mulheres que adoecem.

Como você enxerga a relação entre feminismo e cuidado?
O feminismo abriga muitas tendências. Mas sem nenhuma noção do que é feminismo, as mulheres jamais vão se livrar da dominação masculina. O machismo opera pelos marcos conceituais e pelo manejo sagrado. As mulheres só aprenderão a praticar a sororidade quando compreenderem que não precisam concordar entre si para se apoiarem.

Que tipo de leitura você espera provocar em quem nunca viveu o adoecimento?
Não escrevo com pretensão. Não faço autoajuda. A força do que escrevo está na forma, não no conteúdo. Dialogo com quem deseja ler. Como ensinou Paulo Freire, quem dialoga não impõe uma verdade absoluta.

O que você diria para outras mulheres educadoras que enfrentam doenças graves?
Não diria nada. A melhor forma de acolher quem precisa de cuidados é a escuta. A pedagogia da escuta sensível pode ser a melhor — e talvez a única — forma de ajudar.

Qual é a força que te move para continuar escrevendo e pesquisando mesmo em tratamento?
O compromisso com a minha experiência. Sou mãe e quero que meu filho perceba que é possível sonhar e ter palavras diante da vida e de suas contradições.

Se pudesse resumir sua mensagem em uma frase para as leitoras da Mátria, qual seria?
A arte é tudo, porque a vida não basta.