Escrito por: CNTE

Entre fórmulas e fronteiras: a ciência que ainda não é para todas

Mulheres são maioria nas universidades, mas minoria nos espaços de poder. Desigualdades de gênero, raça e maternidade seguem como barreiras invisíveis na produção científica brasileira

Apesar de representarem mais da metade da população brasileira e serem maioria nas universidades e centros de pesquisa, as mulheres ainda enfrentam barreiras profundas para alcançar posições de destaque e acesso igualitário às bolsas de pesquisa. 

Esses desafios se intensificam quando os recortes de gênero, raça, classe, território e maternidade se cruzam, ampliando desigualdades estruturais que impactam diretamente a vida acadêmica e profissional dessas mulheres.

Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) mostram que elas são maioria entre os bolsistas de mestrado (54%) e doutorado (53%). No entanto, essa presença diminui nos níveis mais altos da carreira científica. Nas bolsas de produtividade — as mais prestigiadas e determinantes para o avanço acadêmico — apenas 35,5% são concedidas a mulheres. Em áreas como Engenharia e Tecnologia da Informação, a desigualdade é ainda mais evidente: somente 15,7% das estudantes são mulheres.

O recorte racial aprofunda o abismo. Levantamento da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN) aponta que apenas 18% dos investimentos em bolsas chegam à população negra; menos de 4% contemplam pessoas autodeclaradas pretas e somente 0,25% alcançam indígenas. Esses dados revelam que a desigualdade racial impõe obstáculos ainda mais severos do que a de gênero, afetando diretamente mulheres negras e indígenas que desejam seguir carreira científica.

Para a pesquisadora indígena Bárbara Nascimento Flores, liderança do povo Borum-Kren, o problema não está apenas no acesso à ciência, mas na permanência, no reconhecimento e na redistribuição de poder. “Embora sejamos maioria na pós-graduação, seguimos minoria nos cargos de liderança e nos espaços onde o conhecimento é legitimado. O sistema científico ainda premia trajetórias lineares, descoladas da vida real”, afirma.

Segundo Bárbara, essa exclusão está relacionada a uma lógica científica eurocentrada e colonial, que historicamente deslegitima epistemologias não hegemônicas. “Quando pesquisamos nossos povos, nossas terras e nossas memórias, muitas vezes ouvimos que isso ‘não é ciência’. O problema não é ausência de mérito, é ausência de reconhecimento”, destaca.

As mulheres são maioria na pós-graduação brasileira, mas isso não garante acesso igualitário a oportunidades futuras. No mestrado, elas representam 54% das bolsistas; no doutorado, 53%. Entretanto, quanto mais prestigiada a bolsa, menor a presença feminina. Apenas 35,5% das bolsas de Produtividade em Pesquisa (as mais valorizadas do sistema) são destinadas a mulheres. Em áreas como TI, somente 15,7% das estudantes são mulheres.

A desigualdade racial é ainda mais acentuada que a de gênero. Apenas 18% dos investimentos em bolsas vão para pessoas negras e só 4% para pesquisadoras(es) pretas(os). Informações do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN).

Histórias que comprovam as estatísticas

Esses números se materializam na trajetória de mulheres como Sueli de Souza Santos, professora da Escola Estadual Rosmay Kara José, em Novo Horizonte do Norte (MT). Antes de se tornar professora, Sueli trabalhou na roça, criou os filhos e atuou como merendeira, enquanto tentava continuar estudando.

“Ainda falta muito incentivo, e o preconceito é enorme. É luta todos os dias”, afirma. O desestímulo, conta ela, muitas vezes vinha de dentro de casa: “A minha mãe dizia: ‘isso não é pra vocês’. Sem conhecimento, as pessoas acabam desincentivando. Mas eu tinha algo dentro de mim que queria vencer”.

Ao chegar ao ensino superior, Sueli percebeu uma mudança profunda em si mesma e no olhar da sociedade: “O olhar muda, o pensamento muda e as portas se abrem. As pessoas são obrigadas a respeitar o título, o conhecimento”.

Ela defende que a formação transforma vidas, mas ainda não chega a todos. “Quem não tem recurso se perde pelo caminho. Eu mesma parei várias vezes, tive filhos, voltei mais tarde, mas não desisti. Tem que tentar, tentar e tentar, como dizia a mãe do presidente Lula: ‘tem que teimar’”.

A experiência de Sueli dialoga com o que Bárbara aponta como o peso da maternidade, do cuidado e das responsabilidades comunitárias na trajetória das mulheres na ciência. Mãe de três filhos, a pesquisadora indígena teve sua trajetória acadêmica atravessada por períodos de licença-maternidade e interrupções que impactaram o tempo formal de pesquisa, mas ampliaram sua visão crítica e seu compromisso político.

Para ela, o problema está em um modelo universitário que ignora o cuidado como dimensão legítima da vida científica. “A academia foi criada por homens brancos, urbanos e de classe média alta. Mulheres negras e indígenas entram nesse sistema como exceção”, analisa.

Mas essas histórias ficam ainda mais evidentes quando observamos a trajetória da pesquisadora Regina Marques de Souza Oliveira, também conhecida como Regina Suama Ngola Marques. Hoje professora visitante na Universidade da Califórnia, Regina pesquisa há décadas saúde mental da população negra e relações étnico-raciais, muito antes de o tema ganhar visibilidade no país.

Sua trajetória foi marcada por um percurso atípico, atravessado pela ausência de referências teóricas e institucionais. Atuou em instituições de saúde, educação e justiça antes de ingressar definitivamente na pesquisa e encontrou na psicologia social e na psicanálise caminhos para investigar temas ignorados pela academia. Autoras como Neusa Santos Souza, Izildinha Baptista Nogueira e Virginia Leone Bicudo circulavam mais no movimento negro do que nas universidades, revelando uma ciência que historicamente excluiu pesquisadoras negras.

Para Regina, além das barreiras raciais, o território pesa enormemente: “estar no Nordeste, ser mulher e negra é estar na periferia da ciência”. Universidades do Sudeste e Sul concentram recursos, redes e comissões avaliadoras, tornando quase impossível competir em igualdade de condições. Soma-se a isso o etarismo: muitas mulheres negras chegam mais tarde à carreira acadêmica devido a trajetórias atravessadas por trabalho, maternidade e cuidado.

Mesmo com currículos robustos, pesquisadoras como Regina seguem pouco reconhecidas. Para ela, é ilusório acreditar que ações afirmativas funcionem plenamente sem acompanhamento contínuo, apoio institucional e políticas que também valorizem as mulheres negras mais velhas.

 

Políticas, ciência e o papel do incentivo

Nos últimos anos, programas públicos e universitários têm buscado reduzir desigualdades históricas, sobretudo na participação de meninas e mulheres em áreas STEM. No entanto, Bárbara avalia que essas iniciativas ainda são fragmentadas e dependentes de editais pontuais. “Falta transformar ações isoladas em políticas de Estado”, afirma.

Projetos como o Futuras Cientistas (MCTI) oferecem mentorias e experiências em laboratório. Para a professora Rosy Isaías, coordenadora do projeto Construindo Olhares Botânicos (UFMG), essas iniciativas despertam pertencimento: “Muitas meninas descobrem a carreira quando percebem que aquele espaço também é delas”.

Outras ações, como o Meninas Negras na Ciência (Fiocruz) e o Guardiãs das Águas (UFU), ampliam o acesso de meninas negras à pesquisa. Para Sueli, esses projetos ajudam a impedir que jovens desistam por acreditarem que “não pertencem” à ciência.

Regina alerta, porém, que o incentivo inicial não basta. Sem formação política e enfrentamento do racismo institucional, corre-se o risco de formar cientistas que reproduzam práticas excludentes. Bárbara reforça que, sem políticas de permanência, muitas jovens entram na ciência, mas não conseguem permanecer.

No Congresso Nacional, a Comissão de Educação da Câmara aprovou o Projeto de Lei 840/2021, que cria o Programa Meninas na Ciência e Tecnologia (Meninas Tec) e prevê critérios mais justos para avaliar pesquisadoras que foram mães ou cuidadoras. Para a relatora, deputada Franciane Bayer, excluir mulheres dessas áreas é “um entrave ao desenvolvimento do país”.

A proposta segue para a CCJ e para o Plenário. Se aprovada, poderá representar um avanço importante rumo à igualdade de oportunidades e ao reconhecimento do papel das mulheres — especialmente negras, indígenas e mães — na ciência brasileira.

Avanços legislativos e desafios

No Congresso Nacional, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 840/2021 que busca promover a inclusão de mulheres na ciência e tornar mais justos os critérios de avaliação de pesquisadoras que foram mães ou responsáveis por cuidados familiares. O texto cria o Programa Meninas na Ciência e Tecnologia (Meninas Tec) e prevê palestras, oficinas e ações de divulgação científica nas escolas.

O projeto altera cinco leis — incluindo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e a Lei de Inovação — e amplia em dois anos o prazo de avaliação da produção acadêmica de professoras visitantes que tenham sido mães ou cuidadoras. Para Bayer, excluir mulheres da qualificação acadêmica e profissional nessas áreas não é apenas injusto, “é um entrave ao desenvolvimento do país”.

Para Regina, no entanto, políticas públicas só serão realmente eficazes quando incorporarem outras dimensões que têm sido negligenciadas. Ela acredita que ações afirmativas precisam incluir acompanhamento constante, suporte emocional, formação continuada, estratégias de fortalecimento institucional e, sobretudo, políticas de equidade também voltadas às pesquisadoras negras mais velhas que, segundo ela, foram fundamentais para construir os campos hoje acessados pelas mais jovens, mas permanecem invisibilizadas.

Rosy Isaías reforça que políticas afirmativas são fundamentais: “Bancas e comissões diversas são essenciais. Editais específicos, como os do Instituto Serrapilheira para pesquisadores pretos, pardos e indígenas, fazem diferença. E o bônus para mães nos editais de produtividade do CNPq representa um avanço importante.” Ela destaca ainda que a representatividade tem impacto concreto, “onde chego, levo comigo esse compromisso.”

Sueli concorda que políticas públicas abrem portas, mas afirma que a valorização pessoal também é essencial, “quando queremos ser valorizadas, primeiro precisamos nos valorizar. A formação é contínua, todos os dias temos que buscar conhecimento.”

A proposta agora segue para análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e, depois, do Plenário da Câmara. Se aprovada e sancionada, poderá representar um avanço importante rumo à igualdade de oportunidades e ao reconhecimento do papel das mulheres — especialmente negras, indígenas e mães — na produção científica brasileira.

O que o Brasil perde quando mulheres negras e indígenas ficam fora da ciência

A reflexão de Regina amplia o debate para o impacto nacional e global da ausência dessas mulheres na ciência. Com experiências internacionais na França e nos Estados Unidos, ela afirma que as universidades do mundo reproduzem modelos eurocêntricos e colonialistas, e que o Brasil, por sua própria diversidade, tem potencial único para renovar métodos, paradigmas e formas de pensar. “Apenas os corpos da diferença são capazes de trazer novas linguagens e soluções para o mundo do século 21”, afirma.

Para ela, quando mulheres negras e indígenas são excluídas, o país perde inovação, diversidade epistêmica, novas tecnologias sociais e ambientais, e a possibilidade de produzir conhecimento comprometido com a vida, com os territórios e com o futuro. Perde também a chance de enfrentar crises globais com perspectivas plurais e fundamentais diante dos desafios ambientais, climáticos e sociais.

Construir futuro exige olhar para o passado e para quem abriu o caminho

Um ponto decisivo levantado por Regina diz respeito ao etarismo dentro da ciência. Ela aponta que muitas das mulheres negras pioneiras da academia — aquelas que abriram espaço para o debate racial, criaram metodologias originais e enfrentaram universidades que as rejeitavam — hoje são tratadas como figuras ultrapassadas. Para ela, isso impede a construção verdadeira de equidade, porque rompe a transmissão de conhecimento entre gerações e apaga a história dessas lideranças.

Regina defende que políticas nacionais robustas de equidade precisam incluir bolsas sênior específicas para mulheres negras mais velhas, reconhecimento público de suas contribuições, valorização de suas trajetórias e mecanismos para que elas possam orientar, formar e fortalecer as novas gerações. Sem isso, afirma, a ciência brasileira continuará reproduzindo desigualdades internas e impedindo que a produção de conhecimento represente verdadeiramente sua população.

Caminhos para uma ciência mais justa

No cruzamento de histórias como as de Sueli, Rosy e Regina, fica evidente que o Brasil só alcançará uma ciência inclusiva quando ações afirmativas forem pensadas de maneira ampla, estruturada e contínua; quando as políticas públicas incluírem cuidado, suporte, formação e acompanhamento, quando universidades forem capazes de enfrentar suas próprias desigualdades internas; e quando o país reconhecer — e valorizar — a enorme contribuição das mulheres negras que, mesmo invisibilizadas, foram responsáveis por abrir caminhos para toda uma geração de pesquisadoras brasileiras.

Enquanto isso não ocorre, permanece o desafio de transformar a ciência brasileira em um espaço verdadeiramente plural, capaz de representar a diversidade do país e produzir conhecimento que transforma vidas, como tantas pesquisadoras já fazem, mesmo diante de tantas barreiras.