Manifestação reuniu mais de 300 mil mulheres negras na Esplanada dos Ministérios para reivindicar reparação histórica e um novo pacto civilizatório que inclua o bem viver da população negra e vulnerabilizada
“O Brasil deve uma vida livre de violência para as mulheres negras; deve a nós a construção da noção de cidadania que não seja uma cidadania de segunda classe”, afirma Janira Sodré, integrante do Comitê da Marcha de Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver 2025. O movimento reuniu, em Brasília (DF), no dia 25 de novembro, 300 mil mulheres negras de todos os estados, trabalhadoras, quilombolas, indígenas, jovens, artistas e lideranças comunitárias, além de representantes de mais de 40 países.
“Nós somente recuperaremos a dívida histórica produzindo reparação e apontando para perspectivas de Bem Viver. É preciso um novo pacto civilizatório que coloque a vida das populações, das mulheres e meninas negras, das pessoas mais vulneráveis, no centro de um projeto de envolvimento, não de desenvolvimento - o negro bispo diz isso”, destaca Janira Sodré. Esse projeto de envolvimento deve “produzir conexões significativas com biomas, arranjos econômicos que coloquem no centro o bem-estar e a vida, a fartura e a justiça para as pessoas, produzindo outras formas e outras possibilidades para além das ruínas do capital”.
No dia da mobilização, uma comitiva de 12 representantes do Comitê Nacional da Marcha foi recebida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin, em um encontro histórico. Na ocasião, foram apresentadas as principais demandas institucionais, incluindo o acesso público a arquivos do Judiciário relacionados à escravidão, a criação de protocolos específicos para monitorar processos envolvendo agentes de segurança pública, a celeridade em casos de violência contra mulheres negras e seus familiares e o reconhecimento formal do projeto político defendido pelas mulheres negras organizadas.
“Lutamos para que a população negra possa, de fato, ter oportunidades. Reunimos, na Marcha, mulheres da educação de todo o país, porque sabemos que a educação faz a diferença. E isso significa vencer o racismo e discutir esse tema dentro da escola, com alunos e alunas, professores e professoras. O país é melhor sem racismo”, afirma Ieda Leal, secretária de Imprensa e Comunicação da CNTE.
A administradora paraense Ana Carla Franco, da Marcha Mundial das Mulheres, participou da Marcha e avalia que o Bem Viver é um tema central pois “buscamos viver bem com acesso à saúde, educação, moradia, trabalho digno e valorização, justiça climática e o mais urgente: viver sem violência, que não sejamos mais as maiores vítimas de violência doméstica, que nenhuma mulher mais seja, queremos viver sem medo, com qualidade de vida”.
Conforme Ana Carla Franco, a reparação está intrisecamente ligada às mazelas e violências que sofremos até hoje como consequência do período de escravização de corpos negros. “Necessitamos de reparação por tudo que nos foi negado e ainda temos dificuldade de acesso, como educação de qualidade, melhores colocações no mercado de trabalho, habitação, saneamento básico. Que nossa cultura, nossas criações não sejam raptadas e sim, valorizadas, e sigam pertencidas a nós, mulheres negras e povo negro”.
Para ela, a mobilização traz mudanças de concepção e de olhar sobre as violências e opressões que as mulheres negras sofrem, além de formulação de leis e políticas que venham melhorar nossa vida, buscando reparação e Bem Viver.
Retrospectiva: marchas de 2015 e 2025
A professora aposentada da Rede Estadual de Minas Gerais, Maria Mirtes de Paula, participou das duas edições da Marcha, em 2015 e em 2025. Na avaliação dela, as marchas retratam a cultura e a história do povo negro, fazendo com que a juventude entenda o legado dos antepassados. “Se a juventude pode estar numa escola pública, se pode ter uma casa, se pode ter saúde, se pode entrar na faculdade, se pode entrar em qualquer lugar, foi exatamente pela luta que os nossos antepassados fizeram”.
Ela conta que tanto em 2015, quanto agora em 2025, ficou muito emocionada: “Você vê os corpos de milhares de mulheres negras que pintaram aquela esplanada com a cor da nossa cultura ancestral, da nossa história. E é uma cultura que segue viva e pulsante dentro de nós. Quando a gente vê as mulheres e todas aquelas coisas das nossas ancestralidades ali, seu coração bate muito mais forte”.
Para Mirtes, um dos maiores desafios é enfrentar a resistência ideológica: “A reparação é tratada como um privilégio. Ou então, como eles adoram falar, o racismo reverso. Como nós temos condições de impor qualquer tipo de racismo contra a elite dominante? Eles não aceitam que a reparação é uma questão de justiça social.”
Para ela, a mobilização é “a esperança que a nossa juventude futuramente possa usufruir de educação, de saúde, de moradia”. Mirtes defende que a reparação não pode ser apenas uma ação simbólica e exige uma transformação radical nas estruturas econômicas, políticas e sociais do nosso país.
“Essa reparação passa por três pilares, que é a reparação econômica e institucional; a reparação fundiária, porque a terra é uma questão de dignidade; e a reparação interseccional, porque não dá para você dizer que não existe racismo sem o patriarcado. Então nós precisamos fazer com que a reparação aconteça de forma efetiva”.
O peso da violência sobre as mulheres negras
Segundo o Atlas da violência 2025, mulheres negras são a maioria entre as vítimas de agressões e assassinatos, reflexo do racismo estrutural e da desigualdade social. Em 2024, 63,6% das vítimas de feminicídio eram negras, enquanto 35,7% eram brancas.
Dados preliminares do estudo “Nascer no Brasil 2”, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com informações de mais de 24 mil mulheres entre 2020 a 2023, em 465 maternidades no país, mostra que adolescentes ou mulheres com mais de 35 anos, negras, usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS), com baixa escolaridade, têm mais risco de sofrer violência obstétrica.
“Temos diversos abismos sociais em atendimento em saúde, em educação, em cultura, moradia, renda, índices terríveis de mortalidade materna, de mortalidade infantil no lar liderado pelas mulheres negras. Todas essas desvantagens sociais nos mostram a dívida que a República do Brasil tem com as mulheres negras”, enumera Janira Sodré.
“Nós, mulheres negras, fomos as que mais sofremos violência sexual durante toda a história do nosso país, a formação do nosso país. Então, é preciso que a gente tenha essa reparação também, porque a gente carrega um peso muito grande do racismo e do patriarcado, que são dois pontos, dois elos na estruturação do capitalismo”, declara Maria Mirtes. “A reparação precisa ser feita a partir de nós mulheres, nós mulheres negras, porque tem que ser pensado conosco e para nós”, completa.
Movimento Internacional
A Marcha das Mulheres Negras 2025 transcendeu as fronteiras nacionais, consolidando-se como um potente evento de articulação e construção de agendas globais. A participação internacional foi um dos pilares do evento, trazendo vozes, experiências e estratégias de diferentes continentes para o centro do debate.
Janira Sodré menciona que quando a Marcha foi anunciada houve um crescimento orgânico de mulheres de diversos lugares, da Ásia, da África, das Américas, manifestando interesse em participar do evento. “É como se houvesse uma ambiência internacional onde, em vários lugares do mundo, existe essa vontade, esse desejo de conexão, de organização. E, nesse sentido, o olhar para o que a gente lançou aqui a partir do Brasil foi um olhar de esperança”, pontuou.
A economista e gerente de projetos da Associação de Mulheres Afrocolombianas (Amuafroc), Shari García, participou da Marcha. Ela conta que mais de 40 organizações de mulheres da Colômbia estiveram presentes, tanto virtualmente quanto presencialmente. “A marcha das mulheres negras aconteceu no momento perfeito para renovar a energia e o espírito do trabalho que realizamos na base dos movimentos feministas na América Latina”, destacou.
“Na Colômbia, essas organizações debateram nacionalmente antes da marcha para analisar a conjuntura política atual, marcada pelo racismo sistêmico, pela falta de acesso garantido à justiça e pela violência racista de gênero. Essa rede elaborou um ‘Manifesto Colômbia’, que foi apresentado nos diálogos globais anteriores à marcha e contribuiu para a declaração final”, detalhou Sharia García.
Além disso, a economista reforça que a Amuafroc contribuiu para o desenho metodológico dos diálogos globais, que facilitaram a troca de estratégias para a criação de ações de reparação histórica para pessoas negras e mulheres. “Esses diálogos culminaram na definição de alianças transnacionais para o avanço de uma agenda global que possa ser implementada em cada um dos países. Para a Colômbia, isso representa uma oportunidade que fortalece sua capacidade de diálogo com as instituições e também oferece uma nova esperança para as mulheres afro-colombianas que estão atualmente nesse processo”.
A advogada Gretchen Rohr, que trabalha como estrategista independente de reparações, apoiando movimentos no sul global e no sul dos EUA, também participou da marcha. Ela atua conectando diversos grupos indígenas, formuladores de políticas e administradores de instituições multilaterais que estão promovendo reparações ou tentando desenvolver iniciativas para sua implementação em tribunais, comissões e municípios, tanto em âmbito nacional quanto global.
“Fiquei muito feliz em participar de uma coalizão que organizou o Festival Wakati Wetu no Quênia. O evento aconteceu em Nairóbi, Quênia, cerca de duas semanas antes da Marcha. E assim, trabalhando com parceiros, buscamos maneiras de conectar o movimento pan-africanista de reparações que está sendo impulsionado nas Américas, no Caribe e no continente africano”, informa Gretchen.
Para ela, a Marcha das Mulheres em Brasília foi fundamental: “Neste espaço realmente vi, ouvi e senti toda a vibração da ação libertadora e da construção de demandas participativas. Enquanto estive em Brasília, participei desse belo processo no qual comunidades de todo o país, da América Latina, da região e do mundo todo, puderam contribuir para o manifesto, compartilhar suas ideias sobre como acreditamos ser possível viver de forma diferente e reparar o passado”.
Gretchen Rohr ressalta que se sentiu impactada com o evento. “É um daqueles momentos em que vejo mulheres de todos os gêneros, cis, transgênero e pessoas não-binárias, sentindo-se totalmente livres para usar o que quiserem, para dançar, e estar nesses lugares, nesses espaços, nas ruas, sentindo-se sem pedir desculpas por serem femininas, vibrantes, sem precisar se preocupar em proteger a pele, como se a exposição da pele fosse de alguma forma levar à violência. Mas como a nossa pele é o nosso texto, é isso mesmo, falamos através dela e os nossos ancestrais falam através do que mostramos e do que partilhamos em cada tom que se fez presente naquela marcha. Foi uma experiência transformadora”, concluiu.
Lei 10.639/02: afeto e escrevivências na luta por uma educação antirracista
Um dos avanços na educação antirracista é Lei 10.639/02, que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. O conteúdo inclui o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.
A professora da rede pública de Minas Gerais e escritora, Luana Tolentino, vem traduzindo essa legislação em práticas pedagógicas vivas e afetivas. “Essa lei resulta das reivindicações, das lutas do movimento social negro, e tem um papel importante: é a primeira vez que o Brasil reconhece o quanto o racismo está presente na educação e o quanto ele provoca violências e abismos”, avalia.
Para Luana, a lei foi um marco crucial, que vem formando uma geração para o enfrentamento do racismo e promovendo mudanças comportamentais que podem ser vistas, por exemplo, no mercado literário. “Hoje a gente entra numa livraria e encontra uma bancada de autores negros. Tenho participado de festivais literários e de pautas em programas de TV e vejo que a lei teve efeitos que não se limitam ao espaço escolar”.
Troca de cartas e escrevivências
Luana é autora da tese de doutorado “Pedagogia da Carta: escrevivências, afeto e sentimento na implementação da Lei n. 10.639/2003 - a experiência de troca de correspondências entre estudantes de Ribeirão das Neves/MG e de Búzi/Moçambique”. Essa iniciativa de escrever cartas, que surgiu como forma de tornar o continente africano “palpável” para seus alunos, enfrentou até a precariedade dos correios moçambicanos – solucionada com o auxílio da embaixada do país, que enviou as correspondências em seu malote oficial.
“Defendo o afeto, o sentimento, que são os pilares de uma carta, como forma de efetivar a Lei 10.639 e combater o racismo na sala de aula”, explica a educadora. O projeto virou um capítulo de seu primeiro livro, “Outra Educação é Possível” (2018), obra que se tornou referência em cursos de formação de professores.
A trajetória de Luana como escritora é um ato de resistência e registro. “No nosso país não se pensa numa menina negra, moradora de um bairro periférico, com pais de pouca escolaridade, como escritora”, reflete, creditando ao pai o incentivo para materializar esse sonho. Além do livro sobre práticas pedagógicas, lançou “Sobrevivendo ao Racismo”, com cartas e memórias sobre a discriminação, e o infantil “Mamãe Aprendeu a Ler”, homenagem à mãe que se alfabetizou aos 70 anos.
Desafios na implementação da lei
Apesar dos avanços, Luana é enfática ao apontar os obstáculos. “O espaço escolar ainda é, muitas vezes, uma tragédia para crianças e jovens negros, em função, também, do não cumprimento dessa legislação”, alerta. Ela defende que a escola, reflexo de uma sociedade racista, pode reproduzir discriminações se não as enfrentar de frente. Como caminho, aponta a formação inicial e continuada de professores como política fundamental.
Para Ana Carla Franco, participante da Marcha, o maior obstáculo é o próprio racismo, que impede muitas vezes os profissionais de executar atividades voltadas ao ensino da história e cultura afrobrasileira. “O racismo religioso é muito forte e as religiões afro foram e continuam sendo demonizadas, como também as poucas formações específicas a esses profissionais, para que estejam aptos a oferecer atividades e conteúdos interessantes, bem como saibam contornar essas dificuldades. Muitas vezes as atividades ficam atreladas somente ao dia da consciência negra ou em feiras temáticas”.