Escrito por: CNTE

Uma rede que move o mundo

Do combate ao congelamento salarial na América Central à luta contra o desmonte de direitos civis nos EUA, sindicalistas desenham estratégias conjuntas para enfrentar a precarização e o autoritarismo

Em um cenário global marcado pelo avanço de forças autoritárias, pela precarização do trabalho docente e por transformações tecnológicas aceleradas, mulheres educadoras vêm construindo uma articulação internacional que ultrapassa fronteiras e redefine o papel dos sindicatos na defesa da democracia. 

A Rede de Trabalhadoras da Educação, vinculada à Internacional da Educação, tornou-se um espaço estratégico de escuta, formação e ação política, no qual professoras de diferentes continentes compartilham experiências, constroem agendas comuns e fortalecem o protagonismo feminino no movimento sindical.

Mais do que um fórum de debates, a Rede opera como um território de elaboração coletiva. Nela, questões históricas como a desigualdade salarial, a dupla e tripla jornada de trabalho, a sub-representação feminina em cargos de liderança e a violência política de gênero se entrelaçam com desafios emergentes, como o impacto da Inteligência Artificial sobre o trabalho docente, a vigilância digital e as novas formas de assédio nas redes.

Em setembro de 2025, Brasília recebeu um encontro regional dessa articulação, reunindo representantes da América Latina, América do Norte, África e Europa. O evento marcou um ponto de inflexão: ali, mulheres de realidades muito distintas reconheceram-se em problemas comuns e passaram a desenhar estratégias conjuntas. Mas a força da Rede não está naquele momento específico. Ela reside no processo contínuo de organização, formação e incidência política que vem sendo tecido ao longo dos anos.

Estados Unidos: Avanços históricos e a sombra do retrocesso

A inclusão da National Education Association (NEA) dos Estados Unidos nessa articulação traz uma perspectiva crucial do Norte Global. Daaiyah Bilal-Threats, Diretora Sênior de Políticas Educacionais da NEA, destaca que, embora as mulheres representem quase 80% do magistério público norte-americano, a luta contra estruturas patriarcais permanece viva.

Daaiyah aponta o Title IX (Título IX), lei de 1972 que proíbe a discriminação sexual em instituições financiadas pelo governo federal, como um divisor de águas que impulsionou a participação feminina nos esportes e em carreiras acadêmicas. No entanto, a dirigente alerta para os contragolpes recentes.

"Embora os EUA tenham feito progressos consideráveis, estamos vivenciando retrocessos. Sob a administração Trump, várias ações minaram a igualdade de gênero", afirma Daaiyah. Ela cita o desmantelamento de proteções contra assédio sexual, o banimento de programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) e cortes orçamentários que afetam desproporcionalmente educadoras e estudantes de comunidades marginalizadas.

A resistência da NEA passa por garantir que a liderança reflita sua base: hoje, os dois cargos mais altos do sindicato são ocupados por mulheres negras.

Do voto à voz: mulheres no comando sindical

A colombiana Isabel Olaya Cuero, dirigente da Federação Colombiana de Trabalhadores/as da Educação (Fecode), resume a virada histórica em curso: “Não somos apenas importantes nos sindicatos, somos imprescindíveis”. Em um país onde a direção sindical já foi composta quase exclusivamente por homens, hoje mulheres ocupam espaços centrais.

“Antes, éramos chamadas basicamente para votar. Hoje, temos seis ou sete mulheres na direção nacional. Isso só foi possível com formação política e sindical permanente”, afirma. A experiência colombiana revela um dos pilares da Rede: formar para transformar. A aposta na educação política de jovens professoras tem sido decisiva para renovar lideranças e garantir continuidade às lutas.

Educação pública é pauta feminista

Na Costa Rica, onde cerca de 80% da força de trabalho do setor educacional é feminina, a perspectiva de gênero tornou-se inseparável da defesa da escola pública. Gilda Montero, presidenta da Associação Nacional de Educadores e Educadoras (ANDE), é enfática: “A educação é um direito inalienável. Defender orçamento, salário e infraestrutura é também uma pauta feminista”.

O país enfrenta anos de congelamento salarial, o que afeta de forma desproporcional mulheres que sustentam suas famílias. “A realidade econômica não é a mesma para uma mulher chefe de casa e para quem tem apoio financeiro. Por isso, é fundamental dar enfoque de gênero a esse debate”, explica.

Gilda esteve à frente de uma das mais importantes vitórias recentes do movimento sindical feminino na Costa Rica: a ratificação da Convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho, que combate a violência e o assédio no mundo do trabalho. A conquista veio após mobilizações intensas, incluindo dias de acampamento em frente ao Parlamento.

Democracia sob ataque, redes em expansão

 

Esse movimento de afirmação política ocorre em um contexto de reações conservadoras. Em vários países, governos tentam deslegitimar sindicatos, atacar políticas de igualdade e reduzir o investimento público em educação. Mesmo onde há governos progressistas, estruturas herdadas do neoliberalismo seguem operando contra a ampliação de direitos.

 

É nesse terreno que a Rede de Trabalhadoras da Educação atua como espaço de proteção e impulso. Ao conectar experiências, ela cria uma gramática comum de resistência. A luta contra a privatização da educação aparece como eixo transversal. “A privatização é um flagelo imposto na América Latina. Resistir é uma tarefa coletiva”, afirma Isabel, em mensagem às educadoras brasileiras.

Vem aí a 5ª Conferência Mundial de Mulheres da IE, em Salvador

A violência política digital contra mulheres tornou-se uma das faces mais cruéis do autoritarismo contemporâneo. Professoras que se posicionam publicamente são alvos de campanhas de difamação, ameaças e ataques coordenados. Ao transformar essas vivências em agenda coletiva, a Rede produz reconhecimento: cada relato individual passa a integrar uma narrativa maior, que legitima a dor e a converte em ação organizada. O horizonte para 2026 é ambicioso.

Estão previstas ações formativas em comunicação, negociação coletiva e liderança sindical, com ênfase em jovens mulheres. A valorização de professoras negras na América Latina e o enfrentamento sistemático da violência política de gênero figuram entre as prioridades. 

O próximo grande passo dessa articulação global já tem data e local definidos. O Comitê do Status da Mulher informou ao Conselho da Internacional da Educação (IE) que a 5ª Conferência Mundial de Mulheres da IE será realizada nos dias 15 e 16 de setembro de 2026, em Salvador, Bahia. O tema escolhido para guiar os debates reflete a urgência do momento: “Rising United for Gender Justice” (Erguendo-se Unidas pela Justiça de Gênero).