Por Karina Vilas Boas

Entre os indígenas não há classes sociais como as do homem branco. A terra, por exemplo, pertence à toda comunidade. O trabalho na tribo é realizado por todos, porém possui uma divisão por sexo e idade. As mulheres são responsáveis pela comida, crianças, artesanato, colheita e plantio. Já os homens ficam encarregados do trabalho mais pesado: caça, pesca, guerra e derrubada das árvores.

O Mato Grosso do Sul (MS) é o segundo estado brasileiro de maior população indígena. É estimado
que sejam cerca de 63 mil cidadãos, com destaque para os Kaiowá e Guarani, o maior contigente
populacional, com 40 mil pessoas, os Terena, com 23 mil, e os Kadiwéu, com uma população
de 1500 pessoas.

As mulheres indígenas desempenham historicamente um papel fundamental como agentes de
mudança nas famílias, comunidades e na vida de seus povos. Em MS não é diferente, como deixam claro as mulheres terenas que trabalham de domingo a domingo na Feira Indígena, localizada na Praça Oshiro Takimori, em Campo Grande, capital de MS.

Na Feira Indígena do Mercadão Municipal, cerca de 50 mulheres indígenas, de comunidades e etnias
diferentes, se revezam na venda de produtos feitos nas aldeias do interior, principalmente de Aquidauana, Anastácio e Miranda, no Pantanal. Embora o espaço destinado às etnias do estado tenha sido construído em 1998, a história dos índios no Mercadão não é recente. Desde 1967, indígenas de aldeias do interior já utilizavam a atual praça para comercializar frutas e ervas.

De acordo com a indígena terena Vanda de Albuquerque, de 48 anos, presidenta da Associação das Feirantes, o espaço de comercialização dos produtos indígenas, como artesanatos, flores, mel, frutas, palmito, feijão verde, pequi, mandioca, entre outros, é uma conquista específica das mulheres.“Nossos companheiros cuidam da produção em nossas aldeias e nós mulheres, tradicionalmente, sempre viemos para a cidade comercializar. Aqui, mesmo antes da praça, já era um ponto histórico de venda nosso, mas sofríamos demais com a falta de estrutura e o preconceito dos demais feirantes. Nos organizamos e fomos reivindicar um espaço melhor que resultou nesse”, explica.

Vanda conta que antigamente, antes da construção do local, as mulheres indígenas dormiam no mesmo lugar da Feira. Atualmente, após uma parceria do estado com o Governo Federal, existe uma casa, no centro da cidade, que abriga as feirantes durante o período das vendas. “Percebemos
que através de uma organização, com uma associação, poderíamos conquistar mais do que a Feira e também dar um pouco de dignidade às mulheres indígenas, que vêm buscar aqui o sustento de suas famílias”, disse.

Moradora da aldeia Bananal, em Aquidauana, Júlia da Silva Marques, de 78 anos (foto), ressalta emocionada que criou sete filhos graças à comercialização na Feira. “Estou aqui desde
1983, venho quase todas as semanas, trazendo a saudade da família e a esperança de realizar boas vendas e conseguir suprir as nossas necessidades em casa. Tenho sete filhos, cinco homens e duas mulheres, todos estudaram e seguiram seu caminho, foram criados com o dinheiro que consegui
aqui. Tenho um grande carinho pela luta das mulheres que conquistaram esse espaço”, ressalta.

Artesanato indígena

De acordo com dados do poder público do Estado, o artesanato indígena, principalmente nas comunidades Terena, é o responsável por 86% da renda da família e é uma cultura tradicional, que passa de mãe para filha.

Tanto na Feira do Mercadão Municipal, quanto em outros pontos da capital, o artesanato indígena, com destaque para o Terena e Kadiwéu, é muito presente. Nas produções dos terenas os motivos tribais estão em cerâmicas, adornos e objetos feitos com palha, barro e tecelagem. Já no artesanato Kadiwéu, a matéria-prima é o barro.

Em prédios públicos, como a Casa do Artesão, no centro de Campo Grande, é possível encontrar grande variedade de artesanato indígena. O prédio, construído na década de 1920, hoje comercializa peças das mais diversas etnias. 

Outro local de destaque da venda do artesanato das mulheres indígenas em Campo Grande é o Memorial da Cultura Indígena, um centro cultural brasileiro, situado na Aldeia Urbana Marçal de Souza, única do Brasil. É um espaço que resgata a cultura indígena, com acervo variado de cerâmica Terena, artesanatos em palha, telas e abajures com material e motivos indígenas, além de literatura específica.

Segundo informações do poder público, cada local de venda dos artesanatos possui uma política de funcionamento, desde o cadastramento das peças e a venda ao repasse do recurso para as artesãs.

Direitos iguais: indígenas estão mais atuantes no debate de gênero

De acordo com a publicação “Mulheres Indígenas, Direitos e Políticas Públicas”, do Instituto de Estudos Socioeconômicos do Brasil (Inesc), nas décadas de 1970 e 1980, as questões de gênero no meio indígena brasileiro eram tratadas quase que exclusivamente por lideranças femininas. Mulheres que se destacavam eram acolhidas nas campanhas por direitos humanos como porta-vozes das comunidades e povos indígenas do País.

O estudo do Instituto mostra que ao mesmo tempo em que as mulheres indígenas passam a participar das discussões e das campanhas reivindicatórias mais gerais dos indígenas com o Estado brasileiro (como o direito territorial; o direito à saúde; à educação escolar adequada; a um ambiente saudável; ao controle e à autodeterminação sobre os recursos naturais e à biodiversidade localizada nos seus territórios; à proteção e ao apoio dos órgãos do Estado de defesa dos direitos humanos), elas trazem novas pautas e preocupações. Enriquecem debates, com avaliações e demandas dos espaços específicos em que atuam como mulheres.

O levantamento do Inesc mostra que somente há alguns anos as indígenas passaram a se organizar como movimentos femininos para discutir questões de gênero, o que também para elas ainda é um tema muito recente e pouco claro. Em termos conceituais, apesar de estarem discutindo entre mulheres, acabam discutindo as políticas gerais voltadas para a comunidade.

Na maioria das vezes, as suas demandas são para as questões da saúde e da educação indígena,
sem se atentarem propriamente para o enfoque de gênero.

De acordo com a indígena terena de Aquidauana, Zeli Luis Paes (foto), de 53 anos, para as mulheres indígenas os desafios surgem muito cedo, pois, com o casamento, a comunidade espera que elas sejam boas esposas, cuidando da casa e dos filhos. “Se uma mulher quer seguir um rumo diferente na sua vida, tem que enfrentar alguns preconceitos, pois a comunidade questiona porque uma mulher casada procura um modo diferente para sua vida. Atualmente essa perspectiva vem mudando, mas a comunidade ainda tem aquele pensamento de que os homens devem sustentar a família”, ressalta.

Zeli explica que, a cada dia, as mulheres estão conquistando espaço dentro das aldeias. “Devido a nossas novas posições, precisamos ter formação acadêmica, melhorando nossa capacidade de nos organizarmos em movimentos, associações e contribuir com todos os debates da comunidade”, conclui.

Para ver as imagens desta reportagem, acess o PDF da Revista Mátria 2015