Por Katia Maia
Colaboraram: Ana Paula Domingues, Karina Vilas Boas e Marcionila Teixeira

A letra da música diz que não podemos parar (We can’t stop) e sugere que se “dance com Miley” numa referência a Molly, gíria utilizada em alusão ao ecstasy, droga sintética que ganhou espaço entre os jovens de todo o mundo. A apologia ao consumo de drogas químicas faz de artistas verdadeiros modelos para jovens no uso dessas substâncias

Enquanto se apresenta, a intérprete acende um cigarro de maconha. A cena foi protagonizada pela cantora Miley Cyrus e é mais uma na conturbada vida da artista que não esconde seu consumo de drogas e, mais, chega a incentivar o uso, como o fez em uma entrevista para a revista Rolling Stone, em que contou: “Eu acho que maconha é a melhor droga que existe no mundo. Uma vez, eu fumei um baseado com peyote (cacto alucinógeno). Molly (um dos componentes do ecstasy) também. Essas são drogas felizes – drogas sociais. Elas querem fazer você ser amiga delas”, disse.

Dessa forma, artistas de todo o mundo divulgam e fazem apologia às drogas. Uma postura que, muitas vezes incentiva fãs ao consumo de substancias ilícitas. Segundo pesquisa feita pelo IBGE, o uso de drogas, sobretudo entre as meninas, cresceu entre 2009 e 2014. No caso específico das sintéticas, consumidas predominantemente por pessoas de alto padrão aquisitivo, há uma espécie de ‘glamourização’ do consumo. A cantora Miley Cyrus, de 22 anos, é referência para mais de 50 milhões de jovens e sua postura tem sido de estimular e levantar bandeiras a favor.

De acordo com artigo da Revista Brasileira de Psiquiatria (volume 34, n° 1, de 2014), o consumo de substâncias psicoativas está começando cada vez mais cedo. No Brasil, estudos feitos com adolescentes do Ensino Médio e universitários, entre 15 e 26 anos, apontam que o consumo de álcool e cigarro é maior entre as mulheres, considerados portas de entrada para o uso de drogas ilícitas.

O comportamento de celebridades como Lindsay Lohan, Britney Spears e Miley Cyrus revela a existência do clube das bad girls - meninas novinhas, ricas, famosas e admiradas, que bebem, consomem drogas, fazem farra e saem dos clubes carregadas. 

Os especialistas revelam que o comportamento dessas celebridades incentiva muitas adolescentes. As mulheres agora se socializam e bebem como os homens. As consequências dessa mudança de comportamento logo aparecerão nas estatísticas. “A gente sempre deve ter em mente que essa visão de que um traficante oferece a droga para o jovem quase nunca é inteiramente verdade. A grande influência para que um jovem comece a usar droga é a do grupo”, diz Mina Carakushansky, presidente da Brasileiros Humanitários em Ação (BRAHA) e diretora geral de Prevenção da Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas (ABRAD).

Ela explica que as drogas estão chegando cada vez mais próximo dos jovens e os efeitos sobre eles é mais incisivo. “De uma forma geral, 6% a 9% das pessoas que fumam maconha com mais regularidade ficam viciadas. Mas no jovem esse índice sobe para 16%, ou seja, 1,5 - quase duas pessoas - vão já querer usar de forma mais contínua”, alerta.

Primeira vez
“Ontem à noite, a galera inventou de tomar um ‘doce’ na festa junto com mais seis meninas. Que era aquilo, ‘véio’! Chegou na cabeça como se fosse uma pancada”. O depoimento, retirado de uma sala de bate papo da internet é de uma jovem de 15 anos. 

A primeira sensação da droga é sempre de prazer. “Porque a droga faz isso. Ela no início é boa e a gente se vê levado a querer mais. Só descobre depois que o mal está feito”, declara Bárbara (nome fictício). Ela, hoje com 40 anos, começou a usar drogas aos 13 anos. Entrou por influência do namorado que fumava maconha. “Mas, a maconha não era minha onda. Eu preferia a cocaína associada ao álcool”, diz. 

Bárbara usou drogas por mais de duas décadas. Ela decidiu parar quando sofreu uma overdose. “Eu estava cheirando com meu filho (de 16 anos). Foi ele que me levou para o hospital. Quando a médica quis saber o que eu tinha tomado, ele respondeu que tínhamos cheirado cocaína. Ela perguntou o que ele era meu. Naquele momento, tive muita vergonha”, conta. Limpa (sem o consumo de drogas) há 5 anos, 5 meses e 14 dias, naquele dia ela decidiu que iria parar e ingressou no Grupo Narcóticos Anônimos, N.A., onde encontrou apoio para deixar o uso. 

Mesmo livre da droga, Bárbara reconhece os danos que o vício causou em sua vida. Marcas que vão além dos prejuízos à saúde. “Da minha casa sou a única que não me formei. Não estudei, tive filhos cedo. Eu perdi essa coisa da vida adulta, da adolescência, porque eu estava usando droga”, lamenta.

Motivo 
O consumo de drogas pelas mulheres tem algumas características específicas. Seu uso parece ter uma forte associação com problemas familiares. Já para os adolescentes homens, a relação é com problemas escolares e comportamentos desafiadores. 

Em Mato Grosso do Sul, estado de fronteira com a Bolívia e o Paraguai, considerado um dos principais acessos de drogas ilícitas no Brasil, a Associação de Reabilitação Parceiros da Vida, o “Esquadrão da Vida” - instituição filantrópica, sem fins lucrativos -, atende dependentes de substâncias psicoativas (drogas e álcool), entre 12 e 59 anos. 

Lá, M.S.N, uma menina de 12 anos, internada há um mês, é o retrato de que as drogas ilícitas estão cada vez mais próximas das crianças, principalmente das meninas. Em seu depoimento, ela retrata que estudou apenas até a 3a série e que na escola fumou maconha pela primeira vez. Queria se sentir enturmada. Uma criança que retrata com os olhos cheios de lágrimas que pretende sair dessa vida o mais rapidamente possível: “Pretendo nunca mais usar drogas. Sabe que eu quase fui morta na rua por causa da vida que escolhi? Agora só quero voltar para casa”, afirma.

Para a psicóloga da Associação, Manuela Vieira Ferreira, as crianças são retiradas do universo infantil e acabam nas drogas: “Já chegamos a atender aqui meninas de 10 anos e, na maioria das vezes, o consumo está associado a amizades na escola e à realidade familiar de maus tratos e até de abuso sexual”, explica.

Na instituição, muitas ex-internas são monitoras, uma forma de retribuir o que foi feito por elas. Esse é o caso de Kátia Fernandes Sampaio, de 35 anos, que começou a usar drogas com 14 anos de idade, também na escola. Após 5 anos de tratamento, está livre do vício, se formou técnica de enfermagem e é responsável pela administração dos medicamentos. Para ela, a escola

é um dos acessos às drogas, mas não é a grande responsável por isso. “Na maioria das vezes os alunos matam aula para usar as drogas, por conta da segurança interna dos estabelecimentos escolares. Mas é lá que os jovens se encontram: alguns vem de lares destruídos pela violência, pela própria droga, e outros são a turma do ‘embalo’, querem se enturmar, como foi meu caso”, afirma.

Papel da escola
Mas é na escola que está a grande arma contra as drogas, na opinião de Mina Carakushansky. “A educação é o fator primordial, um país com maior educação, liberdade e democracia oferece o melhor para sua juventude”, disse. Ela pondera que é preciso ter muito cuidado quanto ao discurso
de liberalização da maconha. “Na Holanda, quando se abriram locais para usar droga, aumentou quatro vezes o consumo de maconha”, revela.

Segundo ela, o uso aumenta em lugares com grande disponibilidade e quando o jovem acha que a droga é inócua. “A maconha aumentou no Brasil porque há uma propaganda de que não faz mal, mas não se mostra como a mente e os pulmões se tornam piores, a contagem de espermatozoide diminui, os bebês nascem com peso menor e com problemas quando há o uso. Em países que mostram os danos o consumo caiu”, afirma, defendendo a educação e a prevenção como as melhores armas contra o vício. 

Limites
Para Gilmar Martine, professor de Matemática do Ensino Médio, a atenção dos pais e o diálogo fazem toda a diferença:“Colocar limites é importante. Um adolescente que tem saídas noturnas frequentes, e sem supervisão de adultos, fica mais vulnerável ao uso de drogas. O jovem está em fase de formação de opinião. É importante que ele saiba que existem outras formas de diversão, com menos riscos à saúde”, avalia o professor. 

“Pais e professores devem, através de orientação segura e sem nenhum alarme, criar a condição necessária para que o adolescente tenha uma boa base familiar de princípios, sabendo o que é certo e o que é errado. Pais que mantêm um vínculo afetivo e um diálogo franco com os filhos dificilmente os perderão para a violência e para as drogas.”, alerta a psicóloga Virgínia Levy, especialista em tratamentos contra o vício.

A pedra da perdição

A os 21 anos, Ester (nome fictício) está internada em uma comunidade terapêutica evangélica para se livrar da dependência do crack. A “pedra”, confessa, foi a ponte para a decadência total. “Quando sinto vontade de usar, me ajoelho e rezo”. A “solução” tem dado certo há dois meses, período em que está internada para tratamento. Mas Ester sabe que precisará estar vigilante o resto da vida. Reconhece o poder da rival. Mas nem sempre foi assim.

Convertida à igreja evangélica, ela mesma sugere o nome bíblico Ester para ser usado na reportagem. Hoje ela lembra pouco a jovem de 15 anos que liderava três bocas de fumo em Recife. Era temida por homens e mulheres. Para se proteger de denúncias, fazia “favores” aos moradores, como compra de gás, feira, remédio. A lista de supostos benefícios era extensa, assim como a clientela para comprar maconha.

A relação de Ester com as drogas e a violência, no entanto, começou antes, aos 13 anos, quando ela conheceu o primeiro marido, um traficante com 38 anos, ex-presidiário. “Ele me ensinou tudo. Colocava arma na minha mão, me apresentou vários bandidos temidos. Fui presa quatro vezes quando era menor”, lembra.

Ester conta que gostava da sensação de ser “respeitada” nos lugares aonde chegava. “Agora sei que as pessoas, na verdade, tinham medo de mim. Usei de tudo na vida, remédio, cocaína, maconha, mas foi o crack que me destruiu. Muitos não acreditavam quando me viam, a forma como fiquei. Não andava mais de cabeça erguida”, lembra. Vencida, deixou o tráfico aos poucos, com a anuência de outras lideranças.

O corpo de Ester carrega marcas visíveis das violências praticadas e sofridas. No queixo, uma cicatriz de um tiro. Na perna, pontos de um acidente em que se envolveu ao roubar um carro. Conta que não se sente mãe de nenhum dos três filhos. “O menor, de 11 meses, caiu da cama enquanto eu dormia drogada”, conta, chorando.

Depois do internamento, Ester engordou e até mesmo a relação com a mãe, uma dona de casa, melhorou. “Ela nunca tinha me abraçado na vida. Aqui a gente se abraça, conversa nas visitas, ela me dá carinho, caminhamos juntas”, completa. Ester ainda é muito jovem. Planeja trabalhar, ter outros filhos. Mas sabe que a estrada é longa. E bem difícil. 

O Calabouço do crack e seus zumbis

Nas cracolândias, as mulheres são as mais vulneráveis, segundo estudo da Fiocruz com 32.359 usuários de crack pelo País, divulgado em setembro de 2014. Elas representam, em média, 20% dos dependentes. Muitas se prostituem e se sujeitam a violências. Cerca de 8% delas eram portadoras de HIV e 2,23% tinham hepatite C. Entre os homens, respectivamente, os índices foram 4,01% e 2,75%.

T.M.S, 17 anos (idade que ela diz ter, depois de ter dito 16 e 18), é um triste exemplo desses dados. Viciada em crack desde os 13 anos, abandonou a família, mora nas ruas do subúrbio do Rio de Janeiro, se prostitui e aparenta transtornos psiquiátricos. Não consegue ordenar o pensamento e não fala coisas lógicas.

É muito magra, os dedos e a boca queimados, ausência de vários dentes, muitas cicatrizes pelo corpo. Passa dias e dias sem comer, usando a pedra. “Eu não sei quanto tempo estou na rua. Eu só fumava maconha na balada, mas encontrei esse crack maldito e não larguei mais. Tem muito tempo que não vou em casa. Mas nem quero ir porque não consigo ficar sem usar droga mesmo. Tenho que ficar na rua até morrer”, sentencia ela, que termina a conversa pedindo dinheiro.

Para ver as imagens, acesse o PDF da Revista Mátria 2015