Por Katiuscia Sotomayor e Jordana Mercado

Rede de Trabalhadoras em Educação contribui para a inclusão de políticas de gênero na agenda sindical

No final de 2015, em San Jose,na Costa Rica, cerca de 250 mulheres de vários países conversaram sobre a importância de ações afirmativas na luta por direitos e o papel do movimento sindical no continente latino-americano. Os debates do Encontro Regional da Rede de Trabalhadoras em Educação da Internacional da Educação da América Latina (IEAL) serviram para revelar a força da participação feminina na liderança interna dos sindicatos e na promoção das políticas de gênero na agenda sindical.Há 10 anos, a Rede busca estruturar a construção dos debates sobre a questão de gênero a partir do conhecimento das políticas de equidade e igualdade, implementadas pelas Centrais Sindicais e pelos Governos nas diferentes regiões do continente.

A secretária de relações internacionais da CNTE e vice-presidente da IEAL, Fátima Silva, fez um resgate histórico dessa década de atuação da Rede de Mulheres, falando das primeiras reuniões, das companheiras que se empenharam para construir esse projeto e de processos importantes como os que aconteceram no Brasil e no Peru, em que as políticas de Estado foram debatidas passando por assuntos polêmicos como fé e religião. “A equidade de gênero continua sendo nossa agenda permanente. Já avançamos muito, mas novos desafios se apresentam com os ataques sistemáticos de grupos conservadores que tentam reverter direitos históricos das mulheres”, disse.

Para Roberto Leão, presidente da CNTE e vice-presidente mundial pela América Latina da Internacional da Educação (IE) - central formada por 400 entidades que representam 32,5 milhões de educadores -, é preciso dialogar constantemente sobre política sindical numa perspectiva de poder, gênero e paridade: “É importante que nossas políticas sejam construídas com todo o valor que o olhar e o trabalho das mulheres nos trazem. Nossa luta tem que ser feita por homens e mulheres, lado a lado, pois não haverá uma pedagogia libertadora enquanto isso não for realidade. Essa é a contribuição que a Rede de Mulheres tem trazido ao longo desses 10 anos de trabalho”.

Durante o último encontro, foram divulgados resultados preliminares de duas pesquisas, que demonstram quais foram as contribuições feitas pela Rede de Trabalhadoras da Educação da Internacional de Educação desde 2005, quando foi criada, e devem nortear o trabalho para o próximo período.
A avaliação dos 10 anos de atuação da Rede foi realizada pelos pesquisadores da UBORA (Espanha), e a CNTE teve participação ativa no desenvolvimento desse trabalhoinclusive integrando o grupo focal. Além do Brasil, a pesquisa foi conduzida na Argentina, na Bolívia, na Colômbia, em Honduras e em El Salvador, avaliando a contribuição da Rede para mudanças tangíveis nas políticas de gênero.

As informações coletadas apontaram a evolução do trabalho da Rede e as maiores contribuições aos sindicatos: mais participação de mulheres nas áreas de liderança e na promoção de políticas de gênero na agenda dos sindicatos, favorecendo a conquista de espaços importantes para atuação das mulheres.

A segunda pesquisa trata sobre a participação sindical na construção de políticas públicas de igualdade e inclui as áreas de representação em cargos públicos, prevenção e erradicação da violência contra as mulheres, direitos sexuais e reprodutivos, condições de trabalho e políticas educativas. As primeiras conclusões apontam que, nos países com governos democráticos, os sindicatos avançaram no reconhecimento de direitos. Nos países com governos conservadores, e onde os sindicatos não possuem uma cultura de participação na vida política, os avanços foram muito menores. Igualdade de gênero dentro dos sindicatos.

O avanço dos direitos das mulheres e meninas na educação também foi discutido durante o 7º Congresso Internacional da Educação em Ottawa, no Canadá, no mês de julho. A CNTE participou do evento, o maior congresso de educadores sindicalistas do mundo, que reuniu mais de 1700 representantes de 170 países e aprovou as políticas e estratégias que a organização vai assumir nos próximos anos para defender uma educação pública de qualidade para todos, nos cinco continentes.

Fortalecer o papel feminino nos altos cargos dos sindicatos foi uma das prioridades apontadas pelos educadores, que debateram as metas do plano de ação de igualdade de gênero da Internacional da Educação. Além de promover a paridade dentro dos sindicatos, com representação proporcional em todas as organizações filiadas, com estratégias que vão da capacitação ao recrutamento de novas lideranças, o objetivo é garantir acesso à educação para meninas e o empoderamento econômico das mulheres.

Entre as estratégias apresentadas para acelerar o processo de paridade nos sindicatos estão a adoção de um sistema de cotas de gênero, a criação de comitês de mulheres ou de igualdade e a definição formal de uma política da entidade. Os resultados das discussões do Congresso estão à disposição na Internet, em http://bit.ly/1LRsMqZ.

No Brasil, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), maior central sindical da América Latina com cerca de 4 mil entidades filiadas, é primeira a adotar paridade integral de gênero em todas as estruturas executivas. A implementação da divisão igualitária de homens e mulheres nos cargos nas 27 instâncias regionais e na Executiva Nacional foi anunciada durante o 12º Congresso Nacional da Central Única dos Trabalhadores (Concut), em outubro.

=>Acesse o PDF desta edição da Revista Mátria: http://goo.gl/Osb8xt.