Por Ana Paula Domingues

A feminista negra luta contra o machismo dentro do movimento negro e contra o racismo dentro do feminismo. É preciso ter poder

Feminismo não é o contrário de machismo. A escritora Clara Averbuck explica que é a luta pelo fim da dominação de um gênero sobre outro: “Se você diz ‘não sou feminista, mas acho que todos deveriam ser tratados igualmente e ter os mesmos direitos’ você está dizendo, exatamente: ‘não sou feminista, mas sou feminista’. Se você acredita na igualdade de direitos entre homens e mulheres, você é feminista”.

O movimento político, filosófico e social que defende a igualdade e o fim da opressão de gênero já combateu a falta de equidade no direito à propriedade, lutou pelo voto feminino e teve na liberdade sexual e no direito ao aborto suas principais bandeiras. Hoje, correntes defendem o olhar crítico para questões como a diferença entre as próprias mulheres. É aí que o feminismo negro se insere: as mulheres negras vêem no racismo uma condição que agrava ainda mais a opressão de gênero.

Para Luma de Lima Oliveira, feminista, negra, poeta, socialista, periférica, educadora popular e autora do blog Entre Luma e Frida desde 2012, a batalha que a feminista negra trava na sociedade vai além de defender ideais. Aos 24 anos, a estudante de Letras conta que as energias precisam ser renovadas todos os dias: “Muitas pessoas encaram mulheres negras como fortes, estereótipos de uma sociedade racista-machista, escravocrata e desigual que internalizou que seguramos qualquer barra, mas não é bem assim. Viver em um mundo racista destrói, machuca. Por isso precisamos nos fortalecer cotidianamente”.

Para Gabriela Oliveira, 23 anos, Relações Públicas pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e Youtuber do canal DePretas, a visibilidade é fundamental para esse fortalecimento: “Faço vídeos e textos para Internet, participo de grupos, vou a escolas para conversar com crianças sobre questões raciais e costumo me reunir com outras mulheres negras para perceber as nossas inquietações e dificuldades. É difícil conseguir que a nossa voz seja ouvida fora do nosso meio. As nossas denúncias costumam ser sempre ofuscadas ou diminuídas, inclusive dentro do próprio feminismo”,
acrescenta Gabi.

Consciência negra

Se reconhecer negra e entender o que isso pode significar numa sociedade preconceituosa não precisa vir de berço. Para a jornalista carioca Laís Maurílio, 35 anos, essa percepção chegou na vida adulta. “Tornei-me negra aos 21 anos. Apesar de sempre ter me visto como uma pessoa negra, a consciência da negritude chegou junto com a minha entrada na universidade. Estudei emuma instituição de elite, como bolsista, e no meu primeiro dia de aula me vi em uma turma de 60 alunos onde eu era a única negra. Aquilo me chocou. Cresci na periferia do Rio, cercada por pretos e pardos, e acreditava nunca ter sofrido um preconceito racial”.

Estar na linha de frente dos movimentos exige muito de cada uma dessas mulheres. “Comecei meu posicionamento no início da adolescência. Já sentia as desigualdades desde muito nova, só não sabia nomeá-las ou formas de combatê-las. Com a militância, ferramentas teóricas e práticas
colaboraram para buscar caminhos de (re)existência, afinal, consciência política se faz na luta”, conta Luma. A militância negra é fundamental para que as discussões se ampliem: “Me considero iniciante em todo esse processo. Despertei, primeiramente, para minha própria aceitação como
mulher negra. E depois, para o que isso significava no mundo e, principalmente, no Brasil. Veio aí então o encontro com o feminismo e depois com o feminismo negro. Entendi que como mulher e negra tinha duas lutas para travar: o racismo e sexismo”, revela Gabriela.

Para Laís, se ver como negra levou ao feminismo. “E, uma vez no feminismo, vejo que um recorte de raça é importante. A busca de igualdade para nós, negras, é ainda mais dura e não pode esperar, como defendem algumas feministas quando dizem que devemos partir do que é comum a todas, para depois seguir ao particular. Queremos igualdade e ela deve ser plena para todos”. Elas reforçam que os movimentos feministas não podem levar em consideração apenas a característica do gênero. As necessidades das feministas negras têm, sim, peculiaridades. É uma luta contínua para se nivelar ao patamar das mulheres brancas. Isso inclui a representação feminina na mídia, seu espaço no mercado de trabalho, o lugar de vítima da violência sexual, o protagonismo da maternidade, entre outros temas, pois se há tanto por que as mulheres brancas precisam lutar, é bastante preocupante o fato de que as mulheres negras nem sequer conquistaram igualdade quando em comparação com outros indivíduos do seu próprio gênero.

Um precipício de cores

Pesquisas revelam que realmente há um abismo racial que divide as mulheres. Para diminuir essa distância Luma acredita no papel da escola: “A educação pode romper com privilégios, sendo antirracista, com pautas de gênero em todas as aulas, que aborde questão de classe, sexualidade.
É um trabalho cotidiano de mudança e transformação”. Para Gabriela, a Internet é mais uma opção: “Acredito que, na Internet, consegui que muitas mulheres negras escuras, assim como eu, pudessem ver beleza em si.

Além disso, procuro sempre trazer um tom mais didático a assuntos que só aprendemos na caminhada acadêmica e que podem e devem chegar a um público maior. Com isso, acredito que envolvi muita gente em temas como racismo, sororidade, aceitação”.

Enquanto mulheres brancas lutam para que seus salários sejam equiparados aos salários dos homens brancos, as mulheres negras recebem ainda menor. Conseguir um emprego formal, uma boa colocação e ingressar no ensino superior também são dificuldades típicas daquelas que possuem a pele negra. “Acredito que nos falta empatia, tentar se colocar no lugar do outro como se aquela dor fosse sua. A maioria dos homens não consegue ter empatia pela opressão que as mulheres sofrem. A maioria dos brancos não consegue ter empatia pela opressão sofrida pelos negros. A maioria dos héteros não consegue ter empatia pela opressão das pessoas trans/homossexuais. E assim nós vamos vivendo”, constata Gabriela.

A cor é fator relevante quando analisamos os casos de agressão e assassinato por parte de companheiros e ex-companheiros. As negras são mais de 60% das vítimas de feminicídio. Já no aspecto da sexualidade, as mulheres chamadas de “mulatas” são amplamente exotificadas e tratadas como objetos disponíveis para a exploração.

“Ser mulher em uma sociedade machista, racista e classista é um exercício de militância. As mulheres negras estão lutando desde as senzalas para serem tratadas como seres humanos. Cabe às brancas reconhecerem seus privilégios e respeitarem os lugares de fala das negras, esse também é um ato político. Devemos transformar as nossas teorias e ideias em práticas cotidianas”, ressalta Luma.

No final da fila

Muitas vezes, em grupos feministas, as questões de raça ficam sempre relegadas a um segundo momento, na lógica de primeiro combater o que é comum a todas e depois seguir ao particular – o que inclui as especificidades das mulheres negras e mulheres transgênero, por exemplo. Enquanto isso, as mulheres negras estão abaixo dos homens e das mulheres em geral na maior parte das estatísticas sociais.

DE ACORDO COM O IPEA (INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA), EM 2007, A TAXA DE DESOCUPAÇÃO ENTRE MULHERES NEGRAS CHEGAVA A 12,4%, CONTRA 9,4% ENTRE MULHERES BRANCAS, 6,7% ENTRE OS HOMENS NEGROS E 5,5% ENTRE OS HOMENS BRANCOS. JÁ A RENDA MÉDIA DAS MULHERES NEGRAS ERA DE R$ 436, CONTRA R$ 649 DOS HOMENS NEGROS, R$ 797 DAS MULHERES BRANCAS E R$ 1.278 DOS HOMENS BRANCOS.

Os números fazem parte do levantamento «Retrato das desigualdades de gênero e raça», lançado por Ipea, Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) e Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem). As mulheres negras também são mais vitimadas pela violência quando se usa o recorte gênero e raça: O MAPA DA VIOLÊNCIA 2015 APONTA QUE HOMICÍDIOS CONTRA MULHERES BRANCAS REDUZIU 9,8% E CONTRA MULHERES NEGRAS AUMENTOU 54,2%. Diante deste quadro, fica impossível negar que as negras são oprimidas em um grau maior por conta do racismo em combinação com o machismo.

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