Rachel Moreno
Psicóloga formada pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em Sexualidade Humana e Mestrado
em Meio Ambiente e Sociedade (Fundação-Escola de Sociologia e Política de S. Paulo) e (inc) em psicologia
(USP). Tem mais de 30 anos de militância nas questões de gênero, da qual foi uma das pioneiras no Brasil. É
fundadora do Observatório da Mulher. Trabalha com pesquisa, psicologia, sexualidade e questões de gênero.

A “primavera feminista”, a transversalidade da questão de gênero, as nossas demandas e conquistas têm nos mostrado mobilizadas na rua, presentes em todos os espaços sociais, profissões, cursos e faculdades, indicando que a nossa parte na “lição de casa” foi e está sendo feita. Se, por um lado, histórica e recentemente, reivindicamos os nossos direitos e a equidade de gênero, por outro lado, fizemos a nossa parte da lição de casa, aproveitando e adentrando todos os espaços conquistados. Mas o processo não se dá sem problemas e contradições.

Assim, estudamos mais, estamos em todos os cursos (e com notas melhores) e em todas as profissões – embora não com tanta frequência nas profissões mais bem remuneradas, e não tão presentes nos cargos superiores. Aumentou a nossa participação na manutenção financeira familiar e somos chefes de família (muitas vezes mono-parental) em quantidade significativa (39,8%).

Trazemos o salário para casa, sendo ele através de trabalho formal ou solidário, informal, ao qual acumulamos muitas horas de trabalho doméstico, que nos consome, no mínimo, 4 horas diárias e não remuneradas, nem reconhecidas enquanto trabalho – haja visto o questionamento do governo atual, que se propõe a abolir os 5 anos de “vantagem” que temos, em termos da idade para aposentadoria, alegando também que estaríamos “custando mais” para o governo, em função de nossa maior
longevidade!

Mas continuamos ganhando 70% da massa salarial dos homens, e com diferenças maiores no caso das mulheres negras.

Recentemente, as mulheres, na Islândia, decidiram parar de trabalhar às 14 horas, por considerarem que o salário delas cobria apenas este pedaço da jornada. As francesas, encantadas com o exemplo, calcularam que o que elas ganham paga só até novembro, quando elas então deveriam parar de produzir. Em Barcelona, a prefeita (de esquerda e feminista) chamou os representantes do movimento feminista, dos empresários e do governo para discutirem, planejarem e implementarem uma política gradual que, rapidamente, garantisse que “a trabalho igual” se recebesse “salário igual”. Aqui, essa discussão ainda está longe, embora já haja quem defenda um dia de não-trabalho feminino neste dia 8 de março (dia internacional da mulher).

Os espaços públicos não são planejados de modo a atenderem igualmente homens e mulheres – o “conforto” do transporte público e o seu trajeto estão longe de contemplar as necessidades femininas. E nem as dos homens modernos, como ilustra o espanto de um pai que, indo buscar a esposa no aeroporto, precisava trocar a fralda do nenê; e não encontrava um fraldário em outro lugar senão ... no banheiro feminino, onde ele não podia entrar! Começamos a nos queixar do assédio no transporte público e na rua (campanha “chega de fiufiu”).

Comportamento da Mídia

Comprometida com o golpe, que destituiu a presidenta Dilma Rousseff, a mídia se comprometeu e defendeu um lado – o lado do golpe. Somando-se ao Judiciário e ao Parlamento, o “manchetômetro” acusou um número infinitamente maior de manchetes e matérias negativas à Dilma e ao PT, num desequilíbrio ostensivo. E, junto com essa postura política, acentuou o seu apoio ou condescendência às medidas machistas do governo.

Assim, a mídia internacional reagiu e se manifestou contra o que apelidou de “machistério” (o ministério de Temer, composto exclusivamente de homens, brancos), sem que a nossa mídia local esboçasse qualquer crítica, ou reproduzisse as que foram aqui expressas – nem as mais recentes, como o lançamento da anti-candidatura de Beatriz
Vargas Ramos ao Supremo Tribunal Federal. O Ministério da Mulher, da Igualdade Racial e da Juventude foi reduzido a uma Secretaria, encaixada no Ministério da Justiça, sob o comando de... Alexandre Moraes. E encabeçada por Fátima Pelaes, sobre quem não só pesam denúncias de desvio de recursos públicos, como tendo ela já
se manifestado publicamente contra alguns dos direitos mais caros às mulheres (votou contra um PL que propunha o pagamento de “salário igual, a trabalho igual”, e se posicionou pelos “direitos do nascituro” e contra o direito ao aborto, reivindicado pelo movimento feminista). E, apesar de nossos protestos, também expressos pela renúncia
de metade do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, a mídia nada noticiou...

A grande mídia - não satisfeita com o tratamento que já havia dispensado à presidenta, amplificando as críticas a ela feitas no outro mandato, as vaias dos ocupantes dos lugares mais caros na época da Copa que aqui hospedamos, os comentários característicos com relação a seu peso, sua roupa, seu penteado (coisas que não merecem a
atenção nos casos dos homens no poder) – decidiu ainda nos brindar com um modelo de mulher, que esperavam poder se transformar em aspiracional, e fazer parte da formação de nossa subjetividade, “corrigindo” o “desvio” das menininhas que haviam ousado se imaginar ou sonhar, projetando-se na primeira mulher presidenta em 500 anos
de história do Brasil. E nos bombardeou com a imagem de Marcela Temer, devidamente qualificada e etiquetada como “bela, recatada e do lar”.(Impondo-a como modelo socialmente desejável. E sem nenhuma crítica ou suspeita sobre a paixão (?) que uniu estes dois seres distantes por 43 anos de diferença.).

E, assim, à imagem de “bela, recatada e do lar” se acrescentaram outros estímulos, reforçando o mesmo modelo – como quando se ofereceu cursos de “Princesamento” às meninas...

Atribuíram à Primeira Dama o programa “Criança Feliz”, a partir do qual ela só se manifesta com autorização e copydesk do maridão. E, quando o faz, reforça a importância do papel materno para o desenvolvimento infantil: "Cercada de carinho e cuidados específicos desde a gravidez, uma criança terá mais possibilidade de aprendizado quando chegar a escola". Marcela destacou que “tais cuidados evitam adolescentes agressivos.”

Outros problemas e retrocessos que sofremos, como quando, por iniciativa da Bancada Evangélica, derrubaram a discussão das questões de gênero do PNE, a pretexto de que “estimularia a pedofilia” (?!), a mídia nada disse ou discutiu. Assim como não abre espaço para o posicionamento crítico frente ao projeto de “Escola sem Partido”. Falta à grande mídia a diversidade, na representação da mulher brasileira; a pluralidade, por não contemplar os diversos pontos de vista sobre as questões discutidas; e o espaço para discussão de nossas demandas e prioridades, enquanto mulheres.

Sobra-lhe a culpa de contribuir para a manutenção da violência de gênero, através de sua banalização ou espetacularização, e de seu reforço através da reprodução dos estereótipos e preconceitos. 

Acesse o arquivo completo em PDF da revista Mátria 2017.