Vivemos tempos de incertezas e insegurança. O ano de 2017 começou sob os efeitos danosos de um período no qual o Brasil sofreu um golpe jurídico-parlamentar e misógino. Desde então, vivenciamos uma sequência de recuos e perdas de direitos. Tempos de desconstrução, quando, na verdade, deveríamos estar na direção de avançar cada vez mais. Nação alguma sobrevive a um golpe sem que tenha pela frente o retrato de um povo desamparado e imerso em perdas, danos e incertezas.
A Revista Mátria reflete este momento e o impacto dele sobre as mulheres. E não poderia ser diferente.

Portanto, nesta edição apresentamos a reflexão e convidamos a aprofundar o debate sobre um dos maiores ataques ao povo brasileiro, que é a Reforma da Previdência, que atingirá, de forma mais grave, as mulheres, a luta pelos espaços de poder e decisão no parlamento e a sua resistência frente a todos os obstáculos. Trazemos as bandeiras das mulheres e sua unidade frente à ofensiva da direita da América Latina.

O momento atual em contraste com o vivido há um século, quando, na Rússia, centenas de milhares de mulheres tomavam as ruas e avançavam em conquistas jamais vistas na história. A Revolução Russa completa agora, em 2017, cem anos. Desde lá, a presença das mulheres nos grandes movimentos de massas por direito
ao voto, à educação de qualidade, pelos direitos sexuais e reprodutivos, Diretas Já, igualdade no trabalho e na vida, pelo fim da violência doméstica, mais espaços de poder e decisão até eleger a primeira presidenta brasileira, foi uma trajetória de vida e de luta de milhares de mulheres, determinante para conseguirem transformar muitas de suas lutas em políticas públicas, que impactaram positivamente o povo brasileiro.

A história se encarrega sempre de provar que a luta de classes persiste e que numa sociedade onde os interesses das elites estão acima do estado democrático de direito, nenhuma conquista está assegurada. A onda conservadora, no ano do centenário da Revolução Russa, não poupou a própria Rússia, que legalizou a violência contra a mulher ao definir que existem “violências leves” que podem ser praticadas. O retrocesso civilizacional vem como um tsunami. Mas em meio a toda essa conjuntura adversa, as mulheres foram às ruas, como flores que brotavam em meio ao asfalto, trazendo a primavera, a beleza e o perfume de sua coragem, resistência e ousadia. Grandes mulheres levantaram sua voz nas ruas e no parlamento em defesa da democracia. Jovens mulheres como Carina Vitral, presidente da UNE, à frente do movimento estudantil, enfrentaram a truculência da repressão nas ruas e no Congresso Nacional. Ana Júlia, a estudante que calou os deputados de seu estado, na defesa dos estudantes das ocupações, chamando à reflexão sobre a escola que queremos.

Assim como milhares de mulheres anônimas que, nos ambientes mais improváveis, descobrem forças para mudar suas vidas, como Ravena Carmo, jovem mulher negra, em uma unidade de recolhimento socioeducativo, que passou em primeiro lugar para a Universidade de Brasília. Mulheres que ainda não se sentem representadas nos estereótipos criados reforçados pela grande mídia, e resistem reafirmando sua história, sua cultura, sua militância. Mulheres que aprenderam que a solidariedade entre os povos nos torna mais fortes. Mais que uma revista para mulheres, a Revista Mátria oferece debate e reflexão para homens e mulheres responsáveis pela a construção de um mundo de igualdade contra toda opressão. No balanço de perdas e danos... Sigamos!

Boa leitura!

Diretoria Executiva da CNTE

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