Está no dicionário: família é o conjunto de pessoas, em geral ligadas por laços de parentesco, que vivem sob o mesmo teto; pessoas do mesmo sangue ou não, ligadas entre si por casamento, filiação ou mesmo adoção (...). Em outras palavras, família extrapola conceitos pré-determinados e engloba toda e qualquer formação e/ou constituição, independente de ser formada por um pai, uma mãe e filhos; dois pais ou duas mães e filhos ou qualquer outro tipo de conjunto.

Assim, tem sido uma tendência, em escolas de todo o país, a realização do Dia da Família em vez de o Dia das Mães e o Dia dos Pais. Uma alternativa politicamente correta “que contempla a todos e envolve todas as formações familiares”, explica Keith Soares Alves, diretora da Escola Classe 12, localizada em Taguatinga, Região Administrativa (RA) de Brasília a 30 Km do centro da Capital Federal.

O Dia da Família – ou Festa da Família, como preferem algumas escolas – já é uma realidade, principalmente
na rede pública de ensino. Na EC 12 de Taguatinga, a data é comemorada há 18 anos. Os mais de 400 alunos, do primeiro ao quinto ano, já estão acostumados com a festa, que acontece sempre no mês de maio, próximo ao Dia das Mães.

“Na verdade, o perfil da nossa escola é estar de mãos dadas com a família. A gente tem muitos alunos com problemas familiares que não tem pais, ou são filhos de viciados em drogas ou presidiários. Então, o nosso foco é trabalhar sempre com a família”, explica Keith.

O Dia da Família é uma alternativa também de respeito à diversidade. Em 2018, Alexandre Marques, advogado e professor, decidiu tirar seu filho de quatro anos de uma escola particular, porque não concordou com o modelo de realização do Dia das Mães.

“Tive um grande embate com a escola porque, na primeira festa, que é a das mães, no mês de maio, vivi o constrangimento horrível de receber um bilhetinho falando da lembrancinha do dia das mães. Eu pontuei que meu filho não iria participar por uma única razão: ele não tem mãe. A escola chegou a pontuar que eu não me preocupasse porque a minha mãe poderia ir no lugar da mãe do meu filho”, contou.

Alexandre é casado com o dentista Inelson Junior e os dois adotaram dois meninos há três anos: o Luiz Felipe, de quatro anos, e o Marcos Vinicius, de 13 anos. Ambos viviam em um abrigo em Trindade (GO).

“Eles sempre tiveram dois pais e expliquei para a escola que só aceitaria que a minha mãe fosse à festa se eu, Alexandre Marques, pudesse subir no palco e fazer as apresentações para homenagear a mãe que é minha. Ouvi a seguinte resposta: pai, você é muito brincalhão”.

Celebrar a família, na opinião do advogado, é um ato de respeito à criança. Porque o contrário, avalia ele “é um ato egoísta nosso homenagear o pai ou a mãe e não se preocupar se a criança, por exemplo, perdeu o pai ou a mãe em acidente. Então, celebrar o dia da mãe ou do pai seria celebrar a morte deles?”, polemiza.

Ele se baseia na própria história com o pai, com quem sempre teve problemas de relacionamento e, no entanto, era obrigado a fazer lembrancinha do Dia dos Pais. “Minha mãe nunca bateu na minha cara, exceto uma vez, num Dia dos Pais em que a escola pediu para fazermos um presente para o pai e eu fiz o meu porcamente”, relembra.

José Messias Araújo Laurentino, 42 anos, é outro pai que apoia o Dia da Família. Para ele, a escolha por celebrar
a data é um avanço. Ele é casado com Dalmiro Oliveira de Jesus, 41 anos. Os dois moram em Goiânia e têm o Enzo, filho de 11 anos, adotado.

“Nosso filho é muito bem instruído. Nunca negamos a questão materna”, disse e conta que quando a professora pediu para ele fazer um poeminha em relação a mãe “ele conversou com outro coleguinha e pontuou: como vou falar de mãe, sendo que eu tenho dois pais e sinto orgulho deles”. Messias avalia que esse é um tipo de situação que acaba trazendo à tona na vida das crianças “um sentimento de abandono. Porque se a mãe abandonou, esse momento vai ser muito dolorido para ela”, disse.

José Messias concorda que para a criança o Dia da Família não é só importante pela questão LGBT, mas porque a família mudou. “Hoje a família não é formada apenas por um pai e uma mãe, tem famílias em que avós e até tios assumem esse espaço”, lembra. “Realizar o Dia da Família é, acima de tudo, uma questão de respeito”, defende Hozana Costa, supervisora pedagógica da EC 12. “Na escola, a gente sempre foca na questão do respeito à pessoa como cidadã, independentemente de cor, raça ou gênero. É um ser humano. Temos que respeitar”, enfatiza a pedagoga.