Passada a ressaca pelos acontecimentos das urnas, no final de 2018, e pelos fatos, atos e declarações do novo Governo Federal – e de parte do seu staff – já no início de 2019, fica um sinal de alerta ligado nos corações e mentes de todos. A mobilização continua, porque há grandes conquistas e enormes avanços que não podem retroceder, ou toda a luta não terá valido a pena. O resultado das eleições não criou vitoriosos ou derrotados porque, entre um lado e outro, há um país a se defender.

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Aliás, na avaliação de quem faz parte de movimentos de resistência, antifascista, e pelos direitos democráticos a derrota nas eleições, para o candidato da direita, não foi suficiente para desfazer o sentimento de luta e de união que levou milhares de mulheres, de todo Brasil, às ruas, unidas por um só sentimento. Por isso, agora, depois da eleição, ninguém solta a mão.

“Murchar agora é impossível. O ano de 2018, apesar de ter havido um enorme retrocesso e uma discussão política extremamente violenta, a gente teve, enquanto mulheres e movimento, muito sucesso em mobilização política”, avalia Marjorie Nogueira Chaves, ativista pelos direitos das mulheres, pesquisadora, doutoranda em Política Social pela Universidade de Brasília (UnB) e mestre em História pela mesma instituição.

Na rede Entre dois mundos – o real e o virtual – o movimento #EleNão ocupou espaços de grandes proporções,
ao longo do segundo semestre de 2018, e em 29 de setembro atingiu seu ápice, quando centenas de milhares de mulheres, em todo o Brasil e em outros países, saíram às ruas para fazer frente à candidatura do então deputado federal de direita, Jair Bolsonaro.

Na avaliação do Centro Feminista de Assessoria e Estudos (Cfemea), a diversidade da mobilização nas eleições trouxe importantes conclusões: “Deixou evidente, apesar das diferenças entre as mulheres presentes nos atos, a certeza de que juntas somos mais capazes de transformar o poder. É isso que queremos, mais mulheres juntas, para transformar a política e construir outras formas de exercício do Poder”, conclui o estudo.

Na ocasião, o atual Presidente era apenas um candidato e a luta estava em plena efervescência. O resultado
das urnas, no entanto, revelou o contrário e venceu o discurso ultraconservador de direita. Mas, como se avalia em momentos estratégicos, perde-se a batalha, mas não a guerra. “A gente precisa entender, também, que este não é um movimento somente do Brasil, ele está também na América Latina. Se a gente considerar a ida das mulheres para as ruas, na Argentina, também por conta da descriminalização do aborto, o movimento Nenhuma a Menos cresceu muito lá. Não tem mais como retroceder”, reafirma Marjorie.

Mãos dadas

Para os especialistas, as eleições expuseram um discurso extremista de direita, marcado pela raiva. “Porém, não é de hoje que feministas, cientistas políticas, educadoras, ativistas têm denunciado que o Brasil – mas não só – tem experimentado, na política e na cultura, uma onda conservadora/reacionária”, avaliam as pesquisadoras Maria Ligia Elias, Doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), e Denise Mantovani, jornalista, doutora em Ciência Política pelo Instituto de Ciência Política da UnB.

Assim, no momento imediatamente após as eleições, a mensagem que mais reverberou nas redes sociais foi “Ninguém Solta a Mão de Ninguém”, uma clara menção ao dia seguinte, ao choque de realidade que acreditam será preciso enfrentar pelos próximos quatro anos.

“Para a gente, este é um momento de muita coragem para enfrentar os desafios, mas requer força, união e solidariedade de cada um”, declara Maria José Moraes Costa, a Masé Moraes, da secretaria de mulheres da
Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag).

Emblemático

O ano de 2018 foi absolutamente representativo para a história do mundo e do Brasil. O mundo viu completar 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e o Brasil, os 30 anos da promulgação da Constituição Federal de 1988, a chamada Constituição Cidadã. E foi justamente neste ano, que o país assistiu à sociedade dizer sim à onda de conservadorismo e movimento de direita.

“Depois de tantas conquistas que, no Brasil, vieram com a abertura pós-democrática, pós--ditadura, com a Constituição Cidadã, com toda uma mobilização da Constituinte em que todos os movimentos sociais participaram.
A gente tem agora esta resposta – algo, aliás, que a nossa sociedade sempre foi; conservadora!”, desabafa
Marjorie.

“Se há algo de positivo, no meio dessa lama política que estamos vivendo, é perceber como tem crescido
a força feminista entre nós mulheres brasileiras, como temos conseguido resistir com nossas próprias cabeças, almas, corpos e vozes!”, analisam Natalia Mori e Sônia Malheiros, do Cfemea. Para elas, a verdade é que a luta
requer tempo e paciência. “Afinal no Brasil, as mulheres foram autorizadas a frequentar a universidade em 1879; a acessar políticas de planejamento familiar para poderem ter domínio de seus projetos de vida; de quantas filhas, com quem tê-las e em que momento de sua vida ser (ou não) mães (Lei nº 9.263, de 12 de janeiro de 1996); igualdade de direitos para as trabalhadoras domésticas (Lei Complementar 150 de junho de 2015); direito a viver livre da violência de quem deveria nos amar (Lei nº 11.340/2006, Maria da Penha)”, enumeram Mori e Malheiros.

Olhar para frente
Para 2019, a expectativa é de luta redobrada. “A gente, desde o resultado das eleições, tem tido esta preocupação com a questão da violência e da repressão muito mais aflorada. A gente está olhando com muito cuidado a questão do medo, mas não se pode apavorar”, comenta Masé. Ela destaca a apreensão de como será a Marcha das Margaridas, por exemplo, neste ano de governo Bolsonaro.

“A princípio, a gente não consegue visualizar nenhum momento que haja abertura. A gente não consegue ver isso da parte do novo governo, mas trabalhamos numa plataforma da marcha. Infelizmente, a gente não consegue
visualizar que uma pessoa, que não quer discutir direitos, queira dialogar com movimentos”, lamenta.

Marjorie diz que o sentimento é de riscos ao que foi conquistado. “A gente fala de todas as mulheres, como um todo; das mulheres negras, que são as que mais morrem por homicídio no Brasil. E, nos últimos 10 anos, este números só aumentou e significa que os instrumentos legais, de combate a violência contra as mulheres, ainda precisam dialogar com a perspectiva racial, para entender que o racismo também é vetor desta violência”, ressalta.

No cenário atual, há de se preocupar com a perspectiva da participação das mulheres no mercado de trabalho, da reforma trabalhista e do fim do Ministério do Trabalho. “Observando, vai ser muito prejudicial para a classe
trabalhadora, como um todo, e principalmente para as mulheres”, lamenta a pesquisadora.

De acordo com Marjorie, é notório que a desigualdade, que já é discrepante, em relação à participação e principalmente aos salários, vencimentos recebidos e formalização, que ainda existe entre homens e mulheres irá se acirrar. 

No fim das contas, para os movimentos sociais, as perdas parecem evidentes, e o país pode vivenciar, segundo Masé, uma fase de retrocesso e de perdas de direitos, além de muito conservadorismo. Assim, em sua avaliação, o retrocesso requer mesmo muita união.

Ninguém solta a mão de ninguém

Uma história narrada pelo jornalista Luís Nassif, que se passou nos tempos da ditadura militar no Brasil, nos barracos improvisados, onde funcionava o Curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP). Ele conta que, de noite, quando as luzes das salas de aula eram repentinamente apagadas, os estudantes buscavam
as mãos uns dos outros, se agarravam ao pilar mais próximo e gritavam no meio do pavor: “Ninguém solta a mão de ninguém”, na tentativa de impedir que alguns deles fossem levados pela repressão.

Depois, quando as luzes acendiam, faziam uma chamada entre eles. Mas, muitas vezes, um colega não respondia, porque já não estava mais lá.

Seguindo esse conceito, a imagem que viralizou imediatamente após as eleições de 2018, criada pela artista plástica e tatuadora mineira Thereza Nardelli, de 30 anos, mostra duas mãos entrelaçadas com uma rosa no meio delas e a frase: Ninguém solta a mão de ninguém. A frase, segundo Thereza, era repetida por sua mãe, como uma espécie de mantra, durante uma época em que sua família atravessava momentos difíceis.

“O desenho representar conforto, sabe? Que não estamos sós. Que tem gente perto e que a gente pode contar sim um com o outro”, avalia a tatuadora, para tentar explicar o sucesso da imagem que criou.

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