Historicamente, a ciência sempre foi vista como uma atividade realizada por homens. Durante os séculos XV, XVI e XVII, períodos marcados por diversos eventos e mudanças na sociedade, houve o surgimento da ciência como conhecemos hoje. Algumas poucas mulheres aristocráticas exerciam importantes papéis de interlocutoras e tutoras de renomados filósofos naturais e dos primeiros experimentalistas. A mudança nesse quadro iniciou-se somente após a segunda metade no século XX, quando a necessidade crescente de recursos humanos para atividades estratégicas, como a ciência, o movimento de liberação feminina e a luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres permitiram a elas o acesso, cada vez maior, à educação científica e às carreiras tradicionalmente ocupadas por homens, de acordo com estudo realizado por Jacqueline Leta, da Scielo Brasil.

Para falar sobre essa movimentação feminina na ciência, que teve grande destaque na pandemia de Coronavírus, conversamos com a Dra. Lorena Guadalupe Barberia, professora do departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e membro do Observatório Covid-19 BR, numa entrevista exclusiva à Revista Mátria.

Revista Mátria: Mesmo sendo incentivadas a não ocupar esses espaços, historicamente ocupado por homens, as mulheres participaram ativamente da ciência, tendo sido responsáveis por grandes descobertas. Como você vê essa movimentação feminina na ciência na última década?

Lorena Barberia: A participação das mulheres é dominante em muitas áreas científicas, e se deve a investimentos elevados que elas fizeram ao longo do último século, para quebrar barreiras. Por exemplo, as mulheres são cerca de 54% dos estudantes de doutorado no Brasil hoje. Conseguimos isso porque gerações de mulheres procuraram ingressar em carreiras universitárias. Porém, há ainda uma desigualdade importante na ocupação de cargos e reconhecimento das mulheres nos campos científicos e, em participar, de determinadas áreas; por exemplo, na matemática e na estatística, as mulheres são minoria. Sabemos que as mulheres sofrem discriminação importante em várias frentes nas ciências. Pesquisas mostram que os estudos liderados por mulheres são citados em menor proporção que artigos parecidos escritos por homens. As mulheres têm menos chances de ser nomeadas para cargos de poder, mesmo tendo as mesmas, ou superiores qualificações. Na docência, sabemos que também há diferenças na maneira em que as mulheres e os homens são avaliados pelos alunos.

Mátria: Com a chegada da pandemia da Covid-19 houve uma corrida científica mundial para a descoberta da vacina, como você vê a participação das mulheres nessa corrida?

Lorena: As mulheres foram lideranças na pandemia em várias frentes. Há que lembrar, por exemplo, os laboratórios de pesquisas básicas, nos quais foram desenvolvidos os estudos de SARS-CoV-2 e sobre as vacinas, que foram realizados com uma forte participação das mulheres. Podemos lembrar do caso de Ozlem Tureci, fundadora da BioNTech, que desenvolveu a vacina Cominarty com a Pfizer; o caso de Sarah Gilbert, que ajudou a desenvolver a vacina Oxford/AstraZeneca e, no Brasil, a pesquisadora Ester Sabino, que foi a primeira pesquisadora responsável por sequenciar o genoma do SARS-CoV-2 no país. Na frente de cuidados, sabemos que as mulheres também foram pioneiras no estudo de como melhor tratar as pessoas infectadas para melhorar as chances de sobrevivência. Ao mesmo tempo, as evidências mostram que as mulheres enfrentaram barreiras importantes para conseguir ter esta contribuição reconhecida.

Mátria: Atualmente, o Governo brasileiro tem feito grandes cortes na Educação e no incentivo a Ciência. O orçamento de 2022, nestas áreas, perdeu bilhões. Nesse contexto as mulheres são as mais prejudicadas?

Lorena: As mulheres são prejudicadas. Vamos pensar, por exemplo, nas bolsas para estudos de pós-graduação. Como as mulheres são a maioria das alunas de doutorado e mestrado no país, há um prejuízo significativo. Temos também que lembrar dos salários dos professores, que tem sofrido uma queda significativa em seu valor real, dado os aumentos de inflação. A pandemia reforçou que a ciência e a educação são cruciais para o enfrentamento da doença. Países sem campos significativos de ciência aplicada, dependem de insumos e inovações desenvolvidas no exterior. Por esses motivos, estes cortes não somente tem um impacto a curto prazo, mas a médio prazo colocam o país em situação mais vulnerável.

Mátria: Socialmente e economicamente falando, a pandemia afetou mais as mulheres?

Lorena: Há múltiplos impactos, em várias frentes, que implicam que a pandemia afetou as mulheres de uma forma muito significativa. Se pensamos na esfera econômica, sabemos que as taxas de desemprego e a crise econômica afetaram as mulheres. Elas sofreram as maiores perdas no mercado de trabalho. A concessão de auxílio emergencial procurou compensar as famílias nas quais as mulheres são as principais responsáveis pelo bem-estar. Porém, o auxílio chegou de forma demorada e depois sofreu cortes significativos. Se pensamos na esfera da educação, também. Em nossos estudos, temos mostrado que houve demora e elevada desigualdade no acesso à educação durante a pandemia. As mães ficaram responsáveis por dar aulas e acompanhar o ensino à distância – nos casos e nos períodos em que essas alternativas foram disponibilizadas. Os dados também mostram que a mortalidade por covid foi maior entre homens. Por isso, temos também que lembrar que ficaram mais mulheres sozinhas à frente de suas famílias.

Mátria: Nos fale sobre a pesquisa que coordenou e como avalia o retorno às aulas neste momento da pandemia.

Lorena: Sou a coordenadora da Rede de Pesquisa Solidária em Políticas Públicas e Sociedade. Como parte de nosso trabalho, liderei um grupo de pesquisadores, que estudou: um, o fechamento do ensino presencial; dois, o oferecimento e o tipo de ensino remoto oferecido; e, três, a qualidade dos protocolos de reabertura para ensino presencial. Produzimos vários estudos e continuamos monitorando estas políticas e seus impactos.

Mátria: Como o negacionismo está afetando a pandemia?

Lorena: O negacionismo é uma estratégia política. Historicamente foi assim e, nesta pandemia, os mesmos padrões se repetem. Não estamos vendo nada diferente de outras pandemias. Negamos, por exemplo, que as condições sociais e econômicas levam as pessoas a maior vulnerabilidade, e isso torna elas mais vulneráveis a ser contaminadas por doenças transmissíveis.

Mátria: Como trabalhar a divulgação científica para evitar os problemas trazidos pelo negacionismo?

Lorena: A nossa esperança é a educação. Ela faz toda a diferença. Por isso, temos que continuar comprometidos em avançar com a educação. Mas, também temos que combater o negacionismo reconhecendo que o objetivo dele é político. As pessoas que estão motivadas a divulgar teorias e dados para negar a pandemia tem um objetivo político. Procuram tirar a responsabilidade do governo, tirar a responsabilidade de ter que cuidar do outro, de ter obrigações sociais. Por isso, temos que insistir também em estudar a pandemia do aspecto político e das políticas públicas.

Mátria: Como será o futuro pós-pandemia?

Lorena: Eu resisto falar em pós-pandemia, porque me parece que os dados de desigualdade deixam claro que, como o mundo, estamos longe do fim. Temos avançado na vacinação de forma muito desigual, e há países com a minoria da população com três doses. Ainda não temos vacinas para crianças de zero a três anos, por exemplo. O que o mundo precisa estudar mais é como sairmos “juntos” e investir nisso ao invés de definir a data de encerramento.

Mátria: Sabemos que na ciência não são dadas as mesmas oportunidades de ascensão na carreira e remuneração justa às mulheres. Como podemos tentar mudar essa realidade aqui no Brasil? As mulheres estão se mobilizando nessa luta?

Lorena: Temos que lutar para valorizar a ciência no Brasil, e isso implica investir em salários e recursos para viabilizar o fazer ciência. Em termos comparativos, competimos mundialmente em condições muito ruins com outros países. Nossas bolsas não permitem aos alunos se sustentarem enquanto estudam, e os recursos para pesquisa são muito limitados. Como pesquisadora e professora, tenho muitas responsabilidades administrativas, que não têm os nossos colegas em outros países, onde há investimentos em equipes para apoiar as pesquisas e o desenvolvimento científico. As mulheres estão muito cientes disso, no mundo científico e acadêmico, pois elas são maioria nestes campos.

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